O governo Lula tenta vender ao público a imagem de uma diplomacia “equilibrada”, “soberana” e “multilateral”. O problema é que, na prática, esse discurso frequentemente esbarra em gestos concretos de alinhamento com regimes e blocos que irritam os Estados Unidos, afastam o Brasil do eixo ocidental e colocam o país no centro de disputas geopolíticas que vão muito além do Itamaraty.
A contradição aparece primeiro na relação com a China. O governo federal elevou a parceria bilateral ao patamar de “Comunidade de Futuro Compartilhado Brasil-China por um Mundo mais Justo e um Planeta mais Sustentável”, expressão diplomática carregada de simbolismo político. Em novembro de 2024, durante visita de Xi Jinping ao Brasil, foram anunciados 37 atos em áreas como agricultura, comércio, infraestrutura, energia, mineração, finanças, ciência e tecnologia. Ou seja: não se trata apenas de vender soja e minério. É uma aproximação estratégica ampla, com alcance econômico, tecnológico e geopolítico.
O segundo ponto está no sistema financeiro. Em 2025, o Banco Central do Brasil e o Banco Popular da China firmaram acordo de swap de moedas. Oficialmente, a medida busca dar liquidez ao mercado financeiro em momentos de necessidade. Politicamente, porém, reforça uma agenda de redução da dependência do dólar, bandeira recorrente do BRICS e da própria política externa lulista. Para Washington, não é exatamente música para os ouvidos; no máximo, é trilha sonora de filme de tensão.
O terceiro caso relevante é tecnológico e espacial. O decreto que formalizou a cooperação Brasil-China para o satélite CBERS-6 prevê lançamento em 2028 a partir da China, com divisão de custos entre os dois países. O projeto dará ao Brasil capacidade inédita de monitoramento por radar, inclusive em áreas estratégicas como Amazônia, fronteiras e zonas costeiras. É cooperação científica, sim. Mas também é dependência tecnológica em área sensível, justamente com o principal rival estratégico dos Estados Unidos.
No caso do Irã, a contradição é ainda mais delicada. Lula se reuniu em 2023 com Ebrahim Raisi, então presidente iraniano, durante a cúpula do BRICS, logo após a confirmação da entrada do Irã no bloco. O Planalto registrou oficialmente o encontro bilateral, tratando Teerã como parte da nova arquitetura internacional defendida pelo Brasil.
A aproximação também apareceu no contexto da guerra no Oriente Médio. Em outubro de 2023, Lula conversou por telefone com Raisi para tratar da libertação de reféns e da saída de brasileiros da Faixa de Gaza. A interlocução, em si, pode ser apresentada como diplomacia humanitária. Mas, no conjunto da obra, reforça a opção do governo por dialogar politicamente com um regime visto pelos Estados Unidos e por Israel como ator desestabilizador no Oriente Médio.
O episódio dos navios iranianos foi o mais simbólico. Em fevereiro de 2023, os navios IRIS Makran e IRIS Dena atracaram no Rio de Janeiro após autorização do governo brasileiro, apesar da pressão americana para impedir a parada. A Reuters registrou que as embarcações chegaram depois de o governo Lula conceder permissão, mesmo diante da resistência dos Estados Unidos. O recado foi claro: Brasília preferiu testar os limites de Washington logo no início do mandato.
Na Venezuela, a política externa lulista voltou ao velho roteiro. Em maio de 2023, Lula recebeu Nicolás Maduro em Brasília e afirmou que a Venezuela havia sido vítima de uma “narrativa de antidemocracia”. A frase virou símbolo de uma tentativa de reabilitação diplomática do chavismo, mesmo diante das denúncias internacionais sobre autoritarismo, perseguição política e colapso institucional no país vizinho.
O alinhamento regional também passa pelo Foro de São Paulo. Em 2023, Lula discursou na abertura do 26º encontro do grupo, em Brasília, defendendo a união dos partidos e movimentos progressistas da América Latina e do Caribe. O próprio PT registrou que Lula, um dos fundadores do Foro, defendeu o fortalecimento de setores progressistas e a reorganização da governança global por meio de fóruns como BRICS, Celac e Unasul.
Depois das eleições venezuelanas de 2024, integrantes ligados ao Foro de São Paulo voltaram a defender respeito à “institucionalidade” da Venezuela e atribuíram aos Estados Unidos parte da crise política e econômica venezuelana. O discurso reforça a velha lógica da esquerda latino-americana: quando a democracia incomoda, chama-se de soberania; quando a crítica vem de fora, chama-se de imperialismo.
Esses movimentos ajudam a explicar por que a relação com os Estados Unidos entrou em nova fase de atrito. O DFMobilidade já mostrou, na matéria EUA apertam o cerco contra PCC e CV e expõem fragilidade do Brasil diante das facções, que Washington passou a tratar o crime organizado brasileiro como ameaça transnacional. Também registrou em Lula reage à decisão de Trump sobre PCC e CV que o presidente respondeu com discurso de soberania, enquanto os americanos avançavam com sanções e enquadramentos internacionais. O Departamento de Estado dos EUA anunciou a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas em maio de 2026, ampliando a pressão sobre o Brasil.
O resultado é uma diplomacia cheia de choques internos. Lula diz defender democracia, mas suaviza Maduro. Fala em soberania, mas aproxima o país de agendas estratégicas chinesas. Prega paz, mas normaliza interlocução política com o Irã. Critica interferência americana, mas não hesita em usar a política externa como palanque ideológico.
No fim, a grande contradição é esta: o governo Lula quer ser tratado pelos Estados Unidos como parceiro confiável, mas age muitas vezes como porta-voz informal do clube dos contrariados com Washington. E, em geopolítica, simpatia ideológica pode até render aplausos em foro internacional; o boleto, como sempre, costuma chegar em dólar.
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