O que deveria ser apenas uma cerimônia de entrega de moradia popular em Samambaia virou mais um capítulo da velha política de Brasília: a tentativa de transformar obra pública em vitrine partidária. Segundo publicação do Metrópoles, o Ministério das Cidades “autorizou” o evento de entrega do Residencial Jonas Loiola, mas impôs condicionantes: presença e fala de Erika Kokay, Rafael Prudente e Chico Vigilante, além de representante da Caixa. Moradia para famílias de baixa renda, pelo visto, precisa passar antes pelo carimbo do palanque.
O detalhe que incomoda é justamente o mais revelador. A obra foi realizada em terreno da Codhab, com financiamento da Caixa, e o GDF entra com R$ 15 mil para cada comprador conseguir viabilizar o imóvel popular. Ou seja, há participação pública de diferentes esferas, mas a cobrança da pasta federal por discursos e exposição obrigatória das marcas do governo federal, do Ministério das Cidades e da Caixa dá ao episódio um cheiro forte de apropriação política.
Enquanto o GDF tenta vender a política habitacional como entrega concreta, o governo federal parece mais preocupado em garantir lugar na foto, fala no microfone e logomarca no cenário. A habitação social, que deveria ser tratada como política de Estado, acaba empurrada para a lógica do “quem aparece mais”. E quando Brasília já sabe separar entrega real de teatro institucional, a exigência soa menos como protocolo e mais como aquela conhecida ansiedade de quem quer colher antes mesmo de plantar direito.
O episódio também contrasta com ações já acompanhadas pelo DFMobilidade na área habitacional, como o repasse de R$ 15 mil do programa Morar DF para famílias de baixa renda e o esforço do GDF para ampliar moradias de interesse social em regiões como Samambaia, Ceilândia e Recanto das Emas. No fim, a pergunta é simples: a prioridade é entregar chave para quem precisa ou entregar microfone para quem quer aparecer?




