Mercosul estratégico de Lula esbarra na velha conta paga pelo Brasil

Foto: Presidência da República
Foto: Presidência da República

Lula subiu ao palco da 68ª Cúpula do Mercosul, em Assunção, para defender que o bloco é uma “necessidade estratégica” em uma região cada vez mais polarizada. O discurso é bonito, redondo e embalado para fotografia oficial. O problema, como quase sempre na diplomacia lulista, aparece quando a retórica encontra a fatura: o Brasil se apresenta como líder regional, mas também como o principal fiador de uma integração que ainda patina entre promessas, burocracia e interesses nacionais conflitantes.

 

O presidente voltou a apostar no Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul, o Focem, e defendeu ampliar a contribuição brasileira para US$ 100 milhões por ano ao longo de uma década. Na prática, Lula tenta vender a ideia de que mais dinheiro brasileiro ajudará a reduzir desigualdades no bloco e financiar obras de infraestrutura, energia, saneamento e integração. É a velha receita do protagonismo financiado pelo contribuinte: Brasília paga a conta, o Planalto posa de estadista e o resultado concreto fica para depois — de preferência depois da próxima eleição.

 

O Mercosul tem relevância comercial, sim. O próprio governo afirma que o comércio interno do bloco saiu de US$ 4,5 bilhões em 1991 para mais de US$ 50 bilhões em 2025, enquanto o intercâmbio com o restante do mundo chegou perto de US$ 760 bilhões. Mas números grandes não escondem perguntas pequenas e incômodas: quem ganha, quem paga e quem decide? O discurso de autonomia regional contrasta com um governo que, no G7, já havia exibido dificuldades de interlocução com potências centrais, como mostrou o DFMobilidade em Lula embarca ao G7 sem reunião com Trump e expõe limite da diplomacia do improviso.

 

Ao defender diálogo “com todos”, Lula tenta vestir o Mercosul com roupa de grande ator global. Mas o figurino ainda fica largo. Entre promessa de acordo com a União Europeia, aproximação com Japão, interesse em conversar com a China e acenos contra “alinhamentos automáticos”, o governo mistura ambição diplomática com uma conta que recai, mais uma vez, sobre o Brasil. E quando a política externa vira palanque, o risco é conhecido: muito discurso sobre soberania, pouca entrega verificável e um país tentando parecer maior no mundo enquanto seus parceiros fazem as contas com a calculadora ligada. O constrangimento externo recente, registrado também em Trump mira Lula em entrevista e chama presidente brasileiro de “muito volátil”, mostra que protagonismo não se decreta em discurso; se conquista com resultado.

 

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