Às vésperas do período em que a legislação eleitoral começa a apertar o cerco sobre a máquina pública, o governo Lula acelerou a comunicação oficial e empenhou R$ 520 milhões para propaganda institucional no primeiro semestre de 2026. O valor, segundo levantamento da Folha confirmado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência, é mais que o dobro dos R$ 213,5 milhões registrados no mesmo período de 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro. Em linguagem menos palaciana: o governo reservou dinheiro para vender suas entregas antes que o calendário eleitoral mande baixar o som.
O detalhe técnico importa. Empenho não significa pagamento imediato, mas representa a reserva formal do orçamento para determinada despesa. A verba se concentra em ações de comunicação institucional, usadas pela Secom para campanhas sobre programas e bandeiras do governo. Entre elas, aparecem peças de grande alcance, como a campanha sobre o fim da escala 6×1, além de ações de posicionamento do governo. A Secom afirma que os gastos seguem os limites previstos em lei e que comparações entre anos diferentes precisam considerar planejamento, políticas públicas e campanhas de utilidade pública.
O ponto sensível está no relógio eleitoral. A partir de 4 de julho, três meses antes do primeiro turno, agentes públicos passam a enfrentar restrições mais duras para autorizar publicidade institucional de atos, obras, serviços e campanhas, salvo em casos de grave e urgente necessidade pública reconhecida pela Justiça Eleitoral. O DFMobilidade já havia mostrado esse cenário na matéria Eleições 2026: julho trava máquina pública e abre convenções, explicando que julho separa administração pública de vitrine eleitoral — ou pelo menos tenta.
A oposição levou o caso ao TSE, alegando possível extrapolação do teto de publicidade no primeiro semestre do ano eleitoral. O governo nega irregularidade. O debate, porém, já saiu da planilha e entrou no campo político: em ano de disputa presidencial, cada campanha oficial vira peça observada com lupa. E, num ambiente em que a comunicação digital já é trincheira permanente, como mostrou o DFMobilidade em Páginas fantasmas colocam R$ 1,1 milhão na vitrine suja da guerra digital contra Flávio e Tarcísio, a fronteira entre prestação de contas e pré-campanha fica cada vez mais estreita.




