IPEDF e Semob vão ouvir passageiros dentro dos coletivos para avaliar pontualidade, segurança, conforto, acessibilidade e funcionamento do sistema
O Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), em parceria com a Secretaria de Transporte e Mobilidade do DF (Semob-DF), iniciou uma pesquisa de avaliação do transporte público coletivo no Distrito Federal. O levantamento será feito diretamente dentro dos ônibus e tem como objetivo medir, pela voz do passageiro, a qualidade do Sistema de Transporte Público Coletivo (STPC).
A iniciativa coloca o usuário no centro da fiscalização do serviço. Na prática, pesquisadores identificados abordarão passageiros durante as viagens para aplicar questionários sobre temas como pontualidade, tempo de espera, conforto, segurança, limpeza dos veículos, acessibilidade e atendimento das equipes. É a velha verdade do transporte público: ninguém conhece melhor a linha do que quem espera por ela no ponto.
A coleta será realizada ao longo de 30 dias, incluindo dias úteis, fins de semana, horários de pico e períodos de entrepico. Entre os horários de maior atenção estão as faixas entre 5h e 7h da manhã e após as 19h, justamente quando a pressão sobre o sistema costuma ser mais sentida pelos trabalhadores e estudantes.
Segundo a Semob, a expectativa é alcançar 3.768 entrevistas, distribuídas em 1.546 viagens e mais de 700 linhas do sistema. A amostra deve abranger todas as bacias operacionais do DF, incluindo regiões administrativas e Plano Piloto. Após a coleta, os dados serão tratados e deverão orientar medidas de planejamento, fiscalização e melhoria do transporte público.
A pesquisa também vai levantar informações sobre hábitos de deslocamento, frequência de uso dos ônibus, quantidade de coletivos utilizados até o destino final, integração tarifária, formas de pagamento e principais motivos das viagens. Outro ponto em análise será o conhecimento dos usuários sobre ferramentas digitais, como o aplicativo DF no Ponto, além da avaliação da Rodoviária do Plano Piloto, terminais e paradas de ônibus.
O levantamento faz parte da implantação do Índice de Qualidade do Transporte (IQT), criado para dar base técnica à avaliação do serviço prestado. A secretária de Transporte e Mobilidade, Sandra Holanda, afirmou que a iniciativa atende às regras de participação social e à necessidade de fiscalização contratual. A previsão é que uma nova coleta seja feita em novembro para validar a metodologia, com aplicação anual a partir de 2027.
A medida ocorre em um momento em que o transporte público do DF passa por diferentes frentes de cobrança e modernização. O DFMobilidade já mostrou que a Semob prepara uma agenda com auditoria nos contratos do transporte público, escuta direta dos passageiros e transição gradual para ônibus elétricos. Nesse cenário, a pesquisa embarcada pode deixar de ser apenas diagnóstico e virar instrumento de pressão sobre as concessionárias.
O tema também se conecta ao processo de modernização do sistema. Em balanço publicado pelo DFMobilidade, o governo local destacou avanços como novos ônibus, tecnologia embarcada, expansão de modais urbanos, aplicativo DF no Ponto e QR Codes nas paradas. A pesquisa agora deve mostrar se essas entregas estão chegando, de fato, à experiência diária do usuário.
Outro ponto sensível é o custo da passagem. O DFMobilidade também noticiou que o Distrito Federal manterá as tarifas de ônibus congeladas até 2026, com valores fixos de R$ 2,70, R$ 3,80 e R$ 5,50, conforme o tipo de deslocamento. A avaliação dos passageiros poderá ajudar a medir se o subsídio público e a manutenção das tarifas estão sendo acompanhados por qualidade compatível no serviço.
Na área de segurança, outro indicador importante já foi registrado pelo DFMobilidade: os roubos em ônibus caíram 52% no Distrito Federal em 2025, segundo dados do 2º Anuário de Segurança Pública do DF. Ainda assim, a percepção do passageiro sobre segurança dentro dos coletivos e nos pontos de embarque será fundamental para medir a sensação real de proteção durante os deslocamentos.
Para o diretor-presidente do IPEDF, Manoel Clementino, o rigor metodológico é essencial para garantir que os resultados reflitam a realidade dos usuários em diferentes regiões, linhas e horários. A ideia é transformar a experiência cotidiana dos passageiros em informação técnica para orientar políticas públicas de mobilidade urbana.
Se bem utilizada, a pesquisa pode se tornar uma ferramenta poderosa de gestão. O passageiro não quer apenas responder questionário. Quer ônibus no horário, ponto decente, veículo limpo, integração funcionando e viagem mais previsível. O resto é planilha — e planilha, sozinha, não leva ninguém para casa.




