A tentativa do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), de modificar o sistema eleitoral brasileiro enfrenta um obstáculo político: transformar o apoio de dirigentes partidários em votos suficientes para aprovar a proposta. A articulação ganhou força após o crescimento do PL nas eleições de outubro, resultado que alterou a distribuição de poder no Congresso Nacional.
Motta pretende votar ainda em 2026 uma reforma que estabeleça o voto distrital misto a partir de 2034, com regras de transição para 2030. A mudança permitiria combinar representantes eleitos diretamente por distritos com parlamentares escolhidos pela votação proporcional nos partidos. Na prática, o modelo reduziria o impacto dos grandes puxadores de votos, fenômeno que favoreceu o crescimento da bancada bolsonarista.
A proposta, entretanto, está longe do consenso. PL e PT, as duas maiores forças partidárias da Câmara, ficaram fora das negociações iniciais. Também surgiram questionamentos sobre o apoio efetivo do Republicanos, legenda de Motta. Embora lideranças do partido tenham sido apontadas entre os participantes das articulações, isso não representa compromisso formal de toda a bancada com a reforma.
O desafio é essencialmente político. Uma mudança constitucional exige pelo menos 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos em cada Casa. Sem adesão expressiva das grandes bancadas, Motta terá dificuldade para transformar sua iniciativa em realidade. A discussão sobre modernizar a representação parlamentar é legítima, mas a pressa em alterar as regras logo depois de uma eleição que fortaleceu adversários políticos alimenta uma pergunta inevitável: a reforma pretende melhorar a democracia ou redesenhar o jogo para preservar o poder de quem perdeu espaço nas urnas?




