A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato não estava nos cálculos dos investidores. Além de a surpresa levar o Ibovespa a derreter 18% na semana pós-eleição, fez a Faria Lima voltar às planilhas. Uma série de choques inflacionários previstos para 2027 acendeu o alerta do mercado para uma inflação mais alta no próximo ano.
Casas como XP e Bradesco estão revisando suas estimativas — o Bradesco deve apresentar o novo cenário na sexta-feira (6) — ou, ao menos, de prontidão para redefinir apostas a qualquer sinal do governo.
Inflação: de 4,2% a 6,1%
As projeções variam bastante entre as instituições:
Lifetime Investimentos: planeja revisar para algo acima de 5%;
Daycoval: deve revisar de 4,2% para 4,7%;
Itaú: elevou a estimativa em 1,5 ponto percentual e vê o IPCA chegando a 6,1% no fim de 2027.
O quadro de maior pressão inflacionária também agrava a atividade econômica. O Itaú revisou sua expectativa para o PIB de 2027 de 1,2% para 0,5%.
O ASA avalia que o PIB de 2027 deve ficar entre zero e recessão, dependendo das expectativas dos agentes econômicos.
Cinco fatores para a alta dos preços
Os analistas apontam cinco vetores principais:
Alta do dólar: na semana pós-eleição, a moeda subiu 9,17%;
Fim da escala 6×1: estudos apontam potencial inflacionário da reforma, pela necessidade de contratação de mais colaboradores;
El Niño: evento climático extremo deve afetar a produção e o preço dos alimentos;
Reforma tributária: a alíquota da CBS sugerida pelo TCU superou as expectativas;
Preço dos combustíveis: pressionado pelo petróleo acima de US$ 100 e pela volta de impostos federais com o fim dos subsídios.
A Warren trabalha com IPCA de 5,2% para 2027, mas a estrategista Andréa Angelo alerta que o impacto da CBS pode elevar o indicador em 0,3 ponto percentual, podendo chegar a 5,5% em um cenário de estímulo via gastos públicos.
A mediana do mercado apurada pelo boletim Focus ainda aponta inflação de 4,34% para 2027, número que vem sendo revisado para cima há semanas.
A resposta amarga do mercado à vitória de Lula se deu pelas expectativas construídas em torno de uma possível vitória de Flávio Bolsonaro (PL), que sinalizaria uma política fiscal mais restritiva. Agora, a atenção paira sobre a indicação do novo ministro da Fazenda e sua postura com as contas públicas.
Antes, acreditava-se em uma trégua maior da inflação por conta da desaceleração da economia e do efeito dos juros altos. A isenção de tarifas de transporte público aos finais de semana, anunciada por Lula na reta final, poderia ser um fator de baixa, segundo Carlos Lopes, do BV.
Ainda assim, a balança pesa mais para uma inflação pressionada em 2027. O UBS destaca o fim dos subsídios aos combustíveis, o petróleo caro, o risco do El Niño, o custo trabalhista do fim da escala 6×1, a carga tributária e o câmbio.




