As urnas mal esfriaram e o teatro ideológico das campanhas já deu lugar ao único ritual que realmente move Brasília: o balcão de negócios. Esqueça os discursos inflamados de palanque, as promessas de renovação ou as juras de fidelidade programática. Na capital federal, a gravidade obedece a outra física, e o quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva já nasce amarrado ao velho e insaciável manual do toma lá, dá cá.
Conforme escancara a apuração da Jovem Pan, o loteamento da Esplanada dos Ministérios já tem fila organizada e senhas distribuídas. PSD, MDB e União Brasil largam na frente para manter ou abocanhar novas pastas, enquanto o Planalto estende o tapete vermelho para Progressistas e Republicanos, além de estreitar os laços com as cúpulas do Legislativo comandadas por Hugo Motta e Davi Alcolumbre.
A ironia é quase pedagógica. Durante a disputa eleitoral, essas mesmas legendas do chamado Centrão ensaiaram passos de dança calculados, mantendo um pé no governo e outro na oposição, recusando-se a embarcar formalmente na campanha petista. Mas basta a confirmação da vitória para que o pragmatismo — nome gourmetizado para o fisiologismo — apague qualquer constrangimento. Quem ontem hesitava no palanque hoje cobra pedágio no Diário Oficial.
Do lado do governo, a desculpa é a mesma repetida há décadas sob o rótulo asséptico de governabilidade. Diante de um Congresso fortalecido na oposição — onde o PL desponta com a maior bancada da Câmara, somando 121 deputados —, o Executivo entrega chaves de ministérios, orçamentos bilionários e cargos de segundo escalão como quem compra um seguro contra a paralisia.
O detalhe mais ácido dessa engrenagem é que nem mesmo o pagamento adiantado garante a entrega do produto. Como muitas reportagens da evidenciam, acomodar essas siglas na Esplanada não assegura o alinhamento integral de suas bancadas nas votações do Congresso. Ou seja: o Estado brasileiro não compra lealdade; paga apenas um aluguel caríssimo, sujeito a reajuste a cada projeto ou emenda constitucional que atravesse a rua rumo ao Parlamento.
Muda o número do mandato, trocam-se os crachás nos gabinetes, mas a essência permanece intacta. No fim das contas, o contribuinte assiste de camarote ao mesmo espetáculo de sempre: os partidos do centro nunca perdem uma eleição, os ministérios continuam servindo como moeda de troca e o projeto de país segue subordinado ao projeto de poder.




