Acidentes de moto viram gargalo na saúde e pressionam bancos de sangue no Rio

Foto: Agência Brasil
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O crescimento dos acidentes envolvendo motocicletas no Rio de Janeiro deixou de ser apenas uma pauta de trânsito e passou a ocupar lugar central na crise da saúde pública. Além de lotar emergências e centros cirúrgicos, os casos graves pressionam os estoques de sangue e ajudam a atrasar cirurgias eletivas, segundo levantamento divulgado por O Globo neste domingo, 10 de maio de 2026.

A situação não aparece do nada. Dados da Prefeitura do Rio já apontavam que, em 2024, os hospitais da rede municipal registraram 20.618 atendimentos a vítimas de acidentes com motocicleta, alta de 66% em relação ao ano anterior. De janeiro a abril de 2025, a cidade já somava 10.094 atendimentos desse tipo. A própria Secretaria Municipal de Saúde classificou o problema como grave questão de saúde pública.

O impacto também chega às salas de cirurgia. Em setembro de 2025, ao anunciar ampliação de leitos de ortopedia no Hospital do Andaraí e no Hospital Municipal Barata Ribeiro, a Prefeitura informou que cerca de 40% das cirurgias ortopédicas estavam relacionadas a acidentes com motociclistas. A gestão municipal chegou a tratar o cenário como uma “epidemia” de acidentes de moto na cidade.

Na prática, cada ocorrência grave ocupa ambulâncias, equipes de emergência, leitos, centros cirúrgicos, bolsas de sangue e profissionais que também atendem pacientes de outras especialidades. O resultado é uma fila invisível: quem aguardava uma cirurgia eletiva pode ver o procedimento adiado porque o hospital precisa priorizar vítimas de trauma.

O problema também pesa sobre os hemocentros. Informações reunidas a partir de dados do Corpo de Bombeiros apontam que, entre janeiro e o início de abril de 2026, foram registrados 9.236 acidentes com motos no estado do Rio, aumento de 7% em relação ao mesmo período do ano anterior. No mesmo intervalo, cresceram registros de quedas e atropelamentos envolvendo motocicletas.

A pressão sobre o sangue é direta. Pacientes politraumatizados podem exigir transfusões em caráter urgente, o que reduz margens de segurança dos estoques. Em janeiro de 2026, o Hemorio já enfrentava nível crítico de abastecimento e alertava para a necessidade de doações regulares para manter o atendimento à rede pública.

O quadro do Rio acompanha uma tendência nacional. O Ministério da Saúde já havia identificado aumento de 55% na taxa de internações de motociclistas entre 2011 e 2021 na rede do Sistema Único de Saúde (SUS) e conveniada. Em 2021, o custo dessas internações chegou a R$ 167 milhões.

A combinação entre imprudência, excesso de velocidade, pressão do trabalho por aplicativo, baixa fiscalização e circulação intensa de motos cobra uma conta alta. E ela não fica restrita aos envolvidos nos acidentes. Chega aos pacientes que esperam cirurgia, aos familiares que aguardam atendimento, aos profissionais sobrecarregados e aos bancos de sangue que precisam correr contra o tempo.

O trânsito, no fim, também é uma fila hospitalar. E quando a moto entra na estatística, quem paga a conta pode ser até quem nunca subiu em uma.

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