Ao observar o tabuleiro político do Distrito Federal e conversar com atores de diferentes espectros nos últimos dias, identifico um fenômeno clássico — e historicamente perigoso — rondando o entorno da campanha de Celina Leão: a instalação silenciosa do clima de “já ganhou”. Como analista atento às dinâmicas de poder, vejo esse momento como o ponto mais crítico de toda a corrida eleitoral. Na política, assim como nas grandes batalhas, a euforia antecipada costuma ser o prelúdio das maiores armadilhas estratégicas.
A leitura fria do cenário impõe uma regra de ouro: é perigoso subestimar o adversário em qualquer circunstância. No caso específico do Distrito Federal, esse erro pode custar caro à base governista. Do outro lado da trincheira está o PT de Leandro Grass que conta com o apoio político do presidente Lula. Ignorar esse componente seria um erro de avaliação.Trata-se de um aparato com peso institucional, capilaridade e recursos suficientes para operar em alta rotação nos bastidores e nas ruas nesta reta final.
Se estamos 20 pontos à frente podemos abrir 25 ou 30.
As pesquisas eleitorais têm um efeito psicológico que muitos subestimam. Podem estimular a confiança ou provocar acomodação entre os aliados de quem lidera. No campo adversário, podem despertar uma reação de resistência ou, ao contrário, alimentar o desânimo. A mesma pesquisa que entusiasma uns pode adormecer outros. É por isso que números favoráveis não devem ser confundidos com votos depositados nas urnas.
Quando o favoritismo se transforma em acomodação, ele desencadeia três efeitos colaterais devastadores na base de qualquer campanha:
- Atrofia da musculatura da militância: O relaxamento natural diante de um cenário favorável faz com que os apoiadores diminuam a mobilização. Uma tropa que reduz a marcha perde o tônus de rua, esfria o debate e perde a capacidade de pronta resposta.
- Desaceleração no subconsciente: O risco mais sutil ocorre quando a certeza da vitória se instala no subconsciente do militante. Sem que a coordenação perceba, o ritmo antes acelerado começa a desacelerar: reuniões encolhem, agendas de rua perdem pressão e votos deixam de ser consolidados.
- Perda de energia com bandeiras falsas: Quando uma base acredita que a fatura já está liquidada, ela passa a gastar energia vital com disputas internas, vaidades e bandeiras falsas — pautas secundárias frequentemente plantadas pelo próprio adversário para gerar distração e dividir o foco.
Pontos para guerra final
Restam exatos 11 dias para as eleições. Pela ótica da estratégia militar aplicada à política, os dias finais de um conflito são aqueles em que o oponente despeja seu último e mais agressivo contra-ataque. Para que o grupo político de Celina Leão blinde sua vantagem contra esses problemas, o momento exige a aplicação imediata de três soluções de guerra:
- Vigilância Máxima e Ocupação de Território (Contra a subestimação): Na doutrina de guerra, não se mede o risco pelo terreno já conquistado, mas pelo poder de fogo que o adversário ainda retém. Para neutralizar o peso da máquina federal que apoia Leandro Grass, a campanha governista precisa manter ocupação total de espaço em cada Região Administrativa, tratando cada reduto como se o placar estivesse empatado.
- Disciplina de Trincheira e Ofensiva Contínua (Contra a atrofia e a desaceleração): Exército que reduz o passo antes da linha de chegada fica vulnerável a emboscadas. O antídoto para expulsar a acomodação do subconsciente da militância é impor metas diárias rígidas de mobilização física e digital, mantendo a musculatura da base tensionada até o último minuto permitido pela legislação eleitoral.
- Unidade de Comando e Foco no Alvo Principal (Contra as bandeiras falsas): Em cenários de combate agudo, cortinas de fumaça são lançadas para dispersar a tropa. A diretriz para estes 11 dias precisa ser de disciplina absoluta: qualquer pauta paralela que drene energia ou desvie o foco da disputa central deve ser tratada como armadilha tática e imediatamente descartada.
O compasso da candidata que alimenta a militância
O ponto mais curioso ao analisar essa conjuntura é notar o contraste entre o risco de relaxamento de parte da base e a postura da própria candidata. Desde o início do pleito, a governadora Celina Leão vem imprimindo uma força política impressionante e um ritmo de trabalho incansável. A leitura de campo mostra uma líder que não tirou o pé do acelerador em nenhum momento: mantém agenda intensa nas ruas, articulação constante e uma entrega física e política que sustenta a tração de sua candidatura.
Para os aliados e militantes que desejam confirmar nas urnas o favoritismo que hoje desenham nas ruas, a receita é simples, embora exija suor: basta espelhar o ritmo da própria governadora.
Em uma eleição decidida nos detalhes, 11 dias são uma eternidade. A vitória não pertence a quem comemora na véspera, mas a quem mantém a guarda alta e o estado de prontidão até o fechamento da última urna.
*Hamilton Silva é jornalista




