O Rio de Janeiro amanheceu nesta segunda-feira (29) com a engrenagem mais sensível da cidade fora do ritmo: os ônibus. A greve dos rodoviários começou após assembleia da categoria no domingo e foi deflagrada por tempo indeterminado, atingindo um sistema que, segundo o Rio Ônibus, transporta cerca de 32 milhões de passageiros por mês na capital fluminense. Quando o ônibus para, a cidade descobre, sem planilha nem discurso bonito, quem realmente carrega o país nas costas.
A Justiça do Trabalho determinou a manutenção de pelo menos 50% da frota operacional ativa em cada linha e itinerário, com multa diária de R$ 50 mil em caso de descumprimento. Mesmo assim, passageiros enfrentaram atraso, incerteza e lotação, enquanto o BRT anunciou operação regular e os trens reforçaram viagens para tentar absorver parte da demanda. O direito de greve é legítimo, mas o direito de chegar ao trabalho também não pode virar artigo de luxo.
No centro da disputa estão salários, jornada e benefícios. Os rodoviários pedem salário de R$ 4 mil para motoristas convencionais, R$ 5 mil para condutores de articulados, tíquete-alimentação de R$ 1 mil, jornada 5×2, manutenção do passe livre e planos de saúde e odontológico. As empresas oferecem reposição de 4,39% pelo IPCA, elevando o piso dos motoristas de R$ 3.420 para R$ 3.570, proposta recusada pela categoria. É a velha novela nacional: o trabalhador pede fôlego, o patrão apresenta índice, e o passageiro paga o intervalo comercial no ponto de ônibus.
A crise carioca reforça um debate que o DFMOBILIDADE já vem acompanhando em outras frentes, como na matéria “Governo Federal: ônibus mais caro no Entorno expõe a conta salgada da ANTT no bolso do trabalhador”, que mostrou o peso da tarifa no orçamento de quem depende do transporte coletivo, e em “Lula sanciona marco do transporte público, mas vetos limitam alívio imediato nas tarifas”, sobre a tentativa de reorganizar financiamento, contratos e qualidade do serviço. O caso do Rio deixa uma lição simples: sem gestão, negociação séria e fonte estável de financiamento, o transporte público continua sendo tratado como emergência permanente — com o passageiro sempre convocado para apagar o incêndio.




