Bancos batem recorde de repasses a acionistas no governo Lula
Os cinco maiores bancos de capital aberto do país já distribuíram R$ 195,7 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio durante o terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O valor, registrado entre 2023 e o primeiro trimestre de 2026, supera em 24,2% tudo o que as mesmas instituições pagaram aos acionistas nos quatro anos do governo Jair Bolsonaro, quando o montante chegou a R$ 157,5 bilhões.
O levantamento, feito pela Elos Ayta e divulgado pela IstoÉ Dinheiro, considera Banco do Brasil, Bradesco, BTG Pactual, Itaú Unibanco e Santander Brasil. A conta inclui apenas valores efetivamente pagos aos investidores, deixando de fora dividendos apenas anunciados ou aprovados, mas ainda não desembolsados.
O resultado expõe uma contradição política e econômica incômoda para o governo federal. Enquanto o discurso oficial costuma mirar a concentração de renda, os grandes bancos atravessam um dos períodos mais rentáveis da história recente do sistema financeiro brasileiro. Em bom português: o sermão é contra o andar de cima, mas o extrato bancário do andar de cima segue muito bem obrigado.
Segundo o estudo, 2025 foi o ano de maior distribuição da série analisada. Somente naquele ano, os cinco bancos pagaram R$ 85,3 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio. O Itaú liderou com folga, com R$ 48,9 bilhões repassados aos acionistas no período, mais da metade do total distribuído pelos bancos analisados no ano.
O BTG Pactual foi a instituição com maior crescimento proporcional nos pagamentos. Os repasses passaram de R$ 4,9 bilhões durante o governo Bolsonaro para R$ 12,3 bilhões no governo Lula até o primeiro trimestre de 2026, alta de 149,4%. Já o Banco do Brasil elevou a remuneração aos acionistas de R$ 33,5 bilhões para R$ 42,8 bilhões, avanço de 27,9%.
A expansão dos pagamentos ocorre em um ambiente de juros elevados, crédito caro e forte rentabilidade bancária. Para a população, esse cenário costuma aparecer na ponta mais dura da economia: financiamento mais caro, rotativo do cartão sufocante, renegociação difícil e consumo pressionado. Para os acionistas, aparece em forma de dividendos bilionários.
A Elos Ayta também pondera que parte do recorde de 2025 pode ter relação com a antecipação de pagamentos diante das discussões sobre eventual mudança na tributação de dividendos. Ou seja, empresas com caixa forte podem ter acelerado repasses para evitar riscos futuros de aumento de carga tributária.
O contraste ganha ainda mais força quando comparado a outros debates fiscais em curso. No Distrito Federal, por exemplo, o DFMobilidade já mostrou que o governo Lula voltou a mirar o Fundo Constitucional do DF em discussões sobre ajuste de contas públicas, mesmo sendo uma fonte essencial para financiar segurança, saúde e educação na capital da República.
A discussão também aparece em meio ao esforço do GDF para proteger o Banco de Brasília. Como mostrou o DFMobilidade na matéria “Acordo no STF destrava crédito de até R$ 6,6 bilhões para capitalizar o BRB”, a negociação entre GDF e União buscou viabilizar uma operação de crédito para reforçar o banco público sem repasse direto de recursos federais ao Distrito Federal.
Antes disso, o portal também havia registrado, em “GDF corre para fechar mais R$ 2,5 bilhões e reforçar capitalização do BRB”, que o governo local trabalhava para recompor a estrutura patrimonial do banco após os impactos envolvendo operações associadas ao Banco Master.
O pano de fundo é claro: enquanto bancos privados e grandes instituições financeiras distribuem valores históricos aos acionistas, bancos públicos regionais, como o BRB, enfrentam exigências regulatórias, disputas políticas e obstáculos fiscais para preservar sua capacidade de atuação.
Na prática, o levantamento reforça uma velha fotografia da economia brasileira: o sistema financeiro segue sendo um dos setores mais resilientes, lucrativos e protegidos do país. Mudam os governos, muda o discurso, muda o tom da propaganda. Mas, no fim da fila, os bancos continuam contando dinheiro. E, desta vez, com números recordes.






