Brasília completa 66 anos nesta terça-feira, 21 de abril de 2026, não como obra acabada, mas como afirmação permanente de um país que ousou sair do litoral para se enxergar por inteiro. A mudança da capital do Rio de Janeiro para o Planalto Central vinha sendo discutida desde a Constituição de 1891, ganhou lastro técnico com os estudos da Comissão Cruls e foi concretizada por Juscelino Kubitschek, com a construção iniciada em 1957 e a inauguração em 21 de abril de 1960. Não se tratava apenas de trocar um endereço administrativo. Tratava-se de empurrar o Brasil para dentro de si mesmo.
Ao longo dessas seis décadas e meia, Brasília se consolidou como uma das mais ousadas experiências urbanas do século 20. O traço de Lúcio Costa e a arquitetura de Oscar Niemeyer deram à cidade uma identidade única, monumental e reconhecível à primeira vista. Não por acaso, Brasília foi inscrita como Patrimônio Mundial e permanece como referência de planejamento urbano, escala cívica e linguagem arquitetônica moderna. Mas a cidade não vive só de concreto branco, pilotis e horizonte aberto. Sua alma nasceu do encontro de milhares de brasileiros que vieram de longe, sobretudo do Norte, do Nordeste, de Goiás e de Minas, os candangos e suas famílias, que ergueram a capital com o braço, a fé, o improviso e a saudade. Brasília é, desde a origem, uma cidade de imigrantes. E talvez por isso tenha desenvolvido uma vocação cultural rara: mistura sotaques, junta tradições, acolhe festas populares, reinventa a música, produz arte, literatura e identidade própria no meio do mapa.
Mesmo sendo a sede da República, Brasília passou a conviver, nos últimos anos, com um paradoxo amargo: abriga o poder, mas muitas vezes é tratada pelo próprio poder como culpada preferencial das crises nacionais. O episódio mais emblemático foi a intervenção federal decretada por Lula na segurança pública do Distrito Federal em 8 de janeiro de 2023, com a justificativa de “grave comprometimento da ordem pública”. O ato marcou uma ruptura institucional pesada e aprofundou a narrativa de desconfiança sobre a capital. Depois vieram outros embates políticos e fiscais. Em 2024, o governo federal tentou mudar a forma de reajuste do Fundo Constitucional do DF, substituindo a correção ligada à receita corrente líquida da União pelo IPCA. A reação foi imediata porque o fundo sustenta áreas essenciais da capital, como segurança, saúde e educação. A proposta acabou retirada do texto final, mas deixou no ar uma sensação recorrente em Brasília: a de que há, em certos setores de Brasília nacional, pouca compreensão sobre a singularidade de Brasília real.
Entre 2000 e 2018, o poder político do Distrito Federal foi atravessado por ciclos longos de domínio, crise e substituição. Joaquim Roriz ainda projetava sua sombra sobre a política local no início desse período. Depois vieram José Roberto Arruda, a implosão de seu governo em meio à crise de 2010, a breve passagem de Paulo Octávio, a interinidade de Wilson Lima, o mandato-tampão de Rogério Rosso e, em seguida, os governos eleitos de Agnelo Queiroz e Rodrigo Rollemberg. Foram quase duas décadas em que Brasília viu oligarquias locais, grupos bem organizados e lideranças de turno disputarem o comando da capital, quase sempre prometendo renovação e quase sempre esbarrando nos velhos costumes da política brasileira.
Em 2026, com a renúncia de Ibaneis Rocha e a posse de Celina Leão no comando do Palácio do Buriti, Brasília entrou em uma nova fase política. Mais do que listar atos administrativos ou fazer balanço apressado, convém registrar o que a cidade parece cobrar deste momento: serenidade, firmeza e compromisso com sua vocação de bem. A esperança de Brasília não está apenas no governante da vez, mas na própria natureza da cidade. Ela nasceu para integrar, para organizar, para servir de ponto de encontro do país. A capital carrega uma vocação pública e cívica que vai além de mandatos e calendários eleitorais.
Aos 66 anos, Brasília continua sendo a Capital da Esperança porque ainda conserva aquilo que falta a tantas cidades e a tantos governos: projeto. Seu céu largo não resolve os problemas do país, mas lembra diariamente que o Brasil pode pensar grande. Sua arquitetura monumental não apaga as injustiças, mas ensina que uma nação só vale a pena quando constrói algo que sobreviva ao imediatismo. E seu povo, formado por gerações de migrantes, trabalhadores, servidores, artistas, comerciantes, estudantes e sonhadores, prova que esta cidade nunca pertenceu apenas aos gabinetes. Brasília pertence aos que a construíram e aos que insistem em defendê-la. Que as futuras gerações recebam não só a herança de seus monumentos, mas também a coragem de preservar sua vocação cultural, seu sentido público e sua esperança.




