Lula simplifica guerra, recebe repúdio unânime no Paraguai e reabre cobrança histórica
A Câmara dos Deputados do Paraguai aprovou por unanimidade, nesta quarta-feira (29), a Declaração nº 1.836, que repudia as declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra da Tríplice Aliança. O documento acusa o petista de “distorcer e minimizar a dimensão histórica” do conflito, ignorando suas origens complexas e o sofrimento imposto à população paraguaia. A manifestação partiu da Câmara Baixa — uma das duas Casas do Congresso Nacional — e foi apoiada por todos os grupos políticos. A decisão foi divulgada oficialmente pelo Legislativo paraguaio.
A crise começou na sexta-feira (24), durante visita de Lula à fábrica da Avibras, em Jacareí, no interior paulista. Ao defender investimentos na indústria militar, o presidente afirmou que “um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil” e acrescentou que tropas paraguaias teriam invadido Corumbá, Argentina e Uruguai. A referência histórica acabou transformando um discurso sobre defesa nacional em incidente diplomático — uma façanha pouco recomendável para quem pretendia falar justamente sobre dissuasão e paz. A visita consta da agenda oficial do Ministério da Defesa.
A sequência histórica, porém, é mais complexa do que a versão apresentada por Lula. A intervenção militar do Império do Brasil na guerra civil uruguaia antecedeu a ofensiva paraguaia contra Mato Grosso, em 1864. Posteriormente, após a Argentina negar passagem às tropas que pretendiam chegar ao Uruguai, Solano López declarou guerra ao governo argentino e invadiu Corrientes. O Paraguai não invadiu o território uruguaio; o Uruguai, já governado por Venâncio Flores, juntou-se a Brasil e Argentina na Tríplice Aliança. Estudos da própria Fundação Alexandre de Gusmão, ligada ao Itamaraty, reconhecem que as origens do conflito passam pelas disputas políticas e militares na região do Prata.
Além do repúdio, a Câmara paraguaia pediu que seu governo pressione diplomaticamente o Brasil pela devolução do canhão “El Cristiano” e de outros troféus levados durante a guerra. A declaração não produz obrigação jurídica imediata, mas formaliza uma cobrança política e amplia o desgaste regional. Depois da crise com a Argentina provocada pelos ataques de Javier Milei e da renovação da emergência dos Estados Unidos contra o Brasil, o Planalto ganhou mais um incêndio diplomático — desta vez, aceso pelo próprio microfone presidencial.






