Gama, 66 anos: das mãos dos pioneiros ao voo do Periquito

GAMA DF - balãodopiriquito

O Gama completa 66 anos nesta segunda-feira, 12 de outubro, com uma história construída por trabalhadores, educadores, artistas e torcedores. Fundada oficialmente em 12 de outubro de 1960, a cidade recebeu famílias ligadas à construção de Brasília e ganhou uma identidade reconhecível nas quadras em forma de colmeia, no cinema de Afonso Brazza e no Periquito que se tornou um de seus símbolos.

O arquiteto Paulo Hungria Machado participou do projeto urbano que organizou o Gama. Também ligado ao planejamento de Sobradinho, ajudou a desenhar uma cidade com setores definidos e traçado hexagonal. Esse desenho permanece como uma das marcas da região, onde diferentes gerações construíram suas casas, seus negócios e suas relações de vizinhança.

Na origem desse projeto também está o engenheiro Joffre Mozart Parada. Filho de um maquinista de trem e de uma dona de casa, formou-se em engenharia em Ouro Preto e trabalhou com Bernardo Sayão. Conhecido como “o homem da régua”, participou do mapeamento das fazendas destinadas ao Distrito Federal e foi coautor do projeto de urbanização do Gama.

A trajetória do paraibano Antônio Gomes Formiga começou antes da inauguração de Brasília. Em 1958, enfrentou 17 dias de viagem em pau de arara para chegar à região da futura capital. Dez anos depois, estabeleceu-se no Gama, onde se tornou uma liderança comunitária e chegou à presidência da Associação dos Microempresários.

Na Quadra 30 do Setor Oeste, seu nome ficou associado ao cuidado com a Praça dos Pioneiros, recuperada com participação da comunidade. O reconhecimento veio também pelo título de Cidadão Honorário de Brasília, recebido em 1998. Na solenidade, Formiga fez questão de repartir a homenagem: “Esse título pertence à comunidade de Brasília”.

Arlene Muniz construiu sua história por meio da educação. Uma visita à igreja frequentada pela mãe lhe mostrou um fiel surdo sem conseguir interagir com os demais. A inquietação a levou a aprender a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e a colocar o conhecimento em prática.

A professora dedicou cerca de 30 anos à educação pública, coordenando docentes de estudantes surdos e desenvolvendo materiais acessíveis no Gama. Depois da aposentadoria, levou essa experiência aos livros infantis. O Meguinho Sapeca incorporou Libras e ganhou exemplares em Braille; Você Pode!, lançado em 2025 com a filha, Reni Muniz, reuniu também a participação de um ilustrador autista e de uma jovem surda.

No cinema, Afonso Brazza encontrou outro caminho para contar o Gama. Chegou à cidade ainda criança e, numa infância de dificuldades, vendeu jornais e trabalhou como catador. Mais tarde, foi para São Paulo, onde aprendeu o ofício nas produções da Boca do Lixo, antes de retornar ao Distrito Federal.

Bombeiro por profissão, Brazza passou a conciliar o serviço com a realização de filmes. Em Inferno no Gama, de 1993, fez da região cenário de uma história de ação produzida com poucos recursos. Sua carreira reuniu os trabalhos de ator, diretor e produtor, com participação de moradores e colaboradores do cinema local.

Em 12 de outubro de 2001, durante o aniversário da cidade, recebeu o título de Cidadão Honorário de Brasília no Cine Itapuã. Brazza morreu em 2003, deixando uma filmografia ligada ao Gama e à produção cinematográfica do Distrito Federal.

Ariomar da Luz Nogueira escreveu sua contribuição na própria paisagem urbana. Natural de Babaçulândia, hoje no Tocantins, chegou ao Gama em 1963, ainda adolescente. Estudou no antigo Colégio do Gama e concluiu Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Brasília em 1976, passando a projetar edificações e monumentos.

Uma de suas obras mais conhecidas é o Monumento do Periquito. Inaugurada em 1º de outubro de 1999, a escultura homenageia a Sociedade Esportiva do Gama e sua torcida pela conquista do Campeonato Brasileiro da Série B de 1998. Com nove metros de altura, o periquito em posição de voo deu ao antigo Balão do Gama um novo nome e uma referência visual.

A ligação de Ariomar com a cidade também aparece em outras intervenções artísticas, como Os Namorados. Reconhecido em vida como Cidadão Honorário de Brasília, em 1997, o arquiteto morreu em 29 de novembro de 2016. Seus projetos deixaram registros do encontro entre arte, arquitetura e cotidiano gamense.

O futebol ganhou uma instituição própria em 15 de novembro de 1975. Na sede do Centro de Desenvolvimento Social do Gama, um grupo de desportistas fundou a Sociedade Esportiva do Gama (SEG). Hermínio Ferreira Neves, o Tim, foi eleito o primeiro presidente do clube, que mobilizou equipes amadoras em torno do projeto profissional.

O primeiro título candango veio em 1979, diante do Brasília, então tricampeão. O resultado fortaleceu a identificação popular com o alviverde. Depois de dificuldades na década de 1980, a recuperação ganhou impulso nos anos 1990, com a gestão de Wagner Marques e uma sequência de conquistas locais.

Em 1998, o Gama alcançou seu principal título nacional: o Campeonato Brasileiro da Série B. A vitória por 3 a 0 sobre o Londrina, no Mané Garrincha, consagrou uma campanha que levou o nome da cidade ao centro do noticiário esportivo e ficou registrada também no monumento criado por Ariomar.

A passagem pela elite incluiu uma disputa judicial contra o rebaixamento de 1999, no impasse que antecedeu a Copa João Havelange de 2000. Nas décadas seguintes, o clube alternou divisões, enfrentou dificuldades e manteve a ligação com a torcida, que se tornou parte inseparável de sua história.

Uma das figuras mais reconhecidas dessa torcida foi José dos Santos Cavalcanti, o palhaço Pirulito. Nascido em São Rafael, no Rio Grande do Norte, mudou-se para Brasília em 1984 com o sonho de trabalhar como ator. No Gama, começou a se apresentar em escolas e espaços públicos; sua estreia como Pirulito ocorreu no Colégio JK.

Entre apresentações e a venda de algodão-doce, pipoca e picolés, levou suas brincadeiras às ruas e às arquibancadas. Trabalhou como ambulante no Bezerrão e se tornou torcedor símbolo da SEG. Pirulito morreu em 24 de julho de 2020, aos 54 anos, no Hospital Regional do Gama, deixando sua presença registrada na memória dos moradores e nos tributos recebidos após a morte.

Em 2026, o clube voltou a ampliar sua coleção de conquistas. No dia 21 de março, venceu o Sobradinho por 5 a 4 nos pênaltis, depois de empate sem gols no Mané Garrincha, e chegou ao 15º título candango. O goleiro Renan Rinaldi defendeu duas cobranças na decisão.

Em 16 de agosto, outra festa teve o Bezerrão como palco. O Gama goleou o São José, do Rio Grande do Sul, por 4 a 0 e garantiu o acesso à Série C do Campeonato Brasileiro. A classificação recolocou o clube numa divisão que não disputava desde 2010, diante da torcida que acompanha sua trajetória há gerações.Historia_do_Gama_66_anos.txt

 

 

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