No filme À Espera de um Milagre, John Coffey percorre o corredor da morte carregando uma condenação injusta e um poder sobrenatural capaz de revelar a verdade. Na adaptação brasiliense desse roteiro, José Roberto Arruda também aguarda um acontecimento extraordinário — mas a semelhança termina aí. O ex-governador não espera que um milagre desfaça uma injustiça; precisa que sucessivas decisões judiciais deixem de produzir efeitos antes que a campanha chegue às urnas. Na política real, porém, esperança não tem força de sentença.
Arruda ainda possui recall, conserva um eleitorado fiel e conhece como poucos os subterrâneos do poder no Distrito Federal. Mas candidatura majoritária exige mais do que memória administrativa, vídeos nas redes e pesquisas com lista de nomes. Em junho, o TJDFT manteve uma condenação por improbidade ligada à Operação Caixa de Pandora; em julho, preservou medidas patrimoniais destinadas a assegurar eventual ressarcimento. É muito passivo judicial para quem tenta apresentar a própria volta como ativo eleitoral. O DFMobilidade já mostrou que a Caixa de Pandora continua cobrando sua fatura.
Agora, a Exata OP acrescentou um obstáculo eleitoral ao drama jurídico. Na pesquisa divulgada na quarta-feira, 8 de julho, Arruda apareceu com apenas 5,6% na consulta espontânea, sendo ultrapassado por Leandro Grass, com 8,4%, e empurrado para o terceiro lugar, enquanto Celina Leão liderou com 16,8%. Na estimulada, Arruda ainda registra 17,3%, contra 15,8% de Grass, mas o voto espontâneo revela algo mais incômodo: quando o eleitor precisa lembrar sozinho de um nome, o ex-governador já não ocupa sequer a vice-liderança. Pior ainda é a rejeição de 39,3%, a maior entre os nomes pesquisados. O levantamento ouviu 1,5 mil eleitores, tem margem de erro de 2,5 pontos percentuais e registro DF-02994/2026 no TSE.
No tabuleiro de 2026, Arruda ainda pode funcionar como cabo eleitoral, fiador de alianças ou peça de pressão nas convenções partidárias. Como candidato efetivo ao Buriti, porém, depende de um milagre duplo: primeiro, superar a barreira jurídica; depois, convencer um eleitorado no qual lidera a rejeição e já foi ultrapassado por Leandro Grass no cenário espontâneo. Como também registrou o DFMobilidade, a realidade jurídica permanece distante do discurso de candidatura. Em Brasília, quem precisa de intervenção sobrenatural para chegar à urna talvez não tenha uma candidatura — tenha apenas um roteiro, uma torcida organizada e uma longa espera.




