Há algo de fascinante na capacidade do governo Lula de tratar a aritmética básica como uma conspiração da Faria Lima.
Desde 2023, o país assiste a um espetáculo de ilusionismo contábil em que o rombo nas contas públicas jamais é fruto da gastança desenfreada, mas sim de uma suposta incompreensão sobre as “virtudes” de um Estado obeso.
O resultado dessa alquimia está exposto na vitrine: uma dívida bruta escalando para a casa dos 83% do PIB, juros engessados nas alturas e um Custo Brasil que reduziu quem produz e emprega à condição de mero financiador de promessas eleitorais sem lastro.
A Esplanada dos Ministérios opera sob um regime de esquizofrenia institucional permanente.
De um lado, a equipe da Fazenda tenta vender aos agentes econômicos uma sobriedade que o próprio Palácio do Planalto faz questão de sabotar antes do almoço. Do outro, a velha guarda do partido — com o entusiasmo de quem parou no tempo — ressuscita receitas mágicas e flerta com o tabelamento de juros por decreto, como se a inflação obedecesse a discursos de palanque.
Enquanto as duas alas disputam o volante para decidir se jogam o carro no precipício pela esquerda ou pelo centro, o país desce a ladeira rumo ao fundo do poço fiscal sem freio e sem coordenador.
Curiosamente, toda essa alergia governista à palavra “austeridade” desaparece por encanto quando o alvo é a capital da República. O mesmo governo que considera um “estelionato eleitoral” cortar um único centavo dos próprios privilérios e ministérios nutre uma obsessão implacável por “tesourar” o Fundo Constitucional do Distrito Federal. Tentaram desidratá-lo na criação do arcabouço em 2023, insistiram na calada da noite no pacote de 2024 e voltaram à carga com amarras legais para confiscar bilhões da segurança pública, da saúde e da educação brasiliense sob o pretexto do déficit que eles mesmos fabricaram. Na curiosa lógica contábil do Planalto, o único gasto público pecaminoso do país é aquele que mantém de pé a cidade que os hospeda.
Às portas de um quarto mandato que já nasce exausto e refém das próprias contradições, o conteúdo segue rigorosamente intacto: expande-se a despesa até o limite da insolvência, terceiriza-se a culpa para o Banco Central e afia-se a tesoura apenas para o orçamento alheio.
No Brasil da “nova matriz” reciclada, o fundo do poço fiscal tem sempre um alçapão de reserva.
Hamilton Silva – Jornalista




