Por menos que isso, Lula evocou Tiradentes e elevou a temperatura contra Flávio e Eduardo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a elevar o tom contra integrantes da família Bolsonaro nesta terça-feira, 2 de junho de 2026, ao comentar a crise comercial entre Brasil e Estados Unidos. Ao criticar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Lula chamou os dois de “traidores” e recorreu a uma comparação histórica envolvendo Joaquim Silvério dos Reis, delator de Tiradentes.
A frase que incendiou o debate político foi direta. Lula afirmou que, “por menos do que isso”, Joaquim Silvério dos Reis foi enforcado após delatar Tiradentes. A declaração foi feita no contexto das articulações de Flávio e Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, em meio à pressão americana sobre o Brasil e à proposta de nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.
A fala do presidente ocorre no mesmo dia em que o governo dos Estados Unidos avançou em uma nova medida comercial contra o Brasil. O Escritório do Representante Comercial dos EUA, o USTR, apontou práticas brasileiras consideradas problemáticas em áreas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, etanol e desmatamento ilegal. O órgão americano abriu processo para discutir a aplicação de tarifas adicionais de 25%, com audiência pública marcada para 6 de julho.
Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, afirmou que pediu diretamente ao presidente Donald Trump que não taxasse empresas brasileiras. Segundo o senador, o argumento apresentado em Washington foi o de que o setor produtivo do país não deveria ser punido por divergências políticas ou comerciais com o governo Lula.
A reação de Lula, porém, deslocou o debate da política comercial para o terreno da acusação política. Ao tratar Flávio e Eduardo como “traidores da pátria”, o presidente tenta associar a oposição bolsonarista à pressão externa contra o Brasil. O problema é que, ao usar a imagem de uma punição histórica extrema, Lula também abriu flanco para críticas sobre o próprio tom adotado por quem ocupa a Presidência da República.
Na prática, a crise já não é apenas tarifária. É diplomática, eleitoral e institucional. De um lado, o governo Lula acusa adversários de atuarem contra interesses nacionais no exterior. De outro, a oposição tenta transformar a relação com Trump em ativo político, apresentando-se como canal de diálogo com Washington em um momento de desgaste do Planalto.
O episódio também reforça o peso da eleição presidencial de 2026 no comportamento dos principais atores. Flávio Bolsonaro busca se consolidar como nome competitivo da direita, enquanto Lula tenta conter a narrativa de isolamento internacional e reagir à ofensiva americana sem admitir que a política externa brasileira acumulou atritos relevantes com os Estados Unidos.
O DFMobilidade já mostrou esse pano de fundo em matérias recentes sobre a movimentação de Flávio Bolsonaro em Washington, a tentativa de diálogo com Trump e a proposta de tarifa contra produtos brasileiros. O tema aparece em reportagens como “Flávio diz que pediu a Trump para não taxar empresas brasileiras” e “Flávio leva pauta do crime organizado a Washington e amplia pressão sobre Lula”, que ajudam a entender o tabuleiro por trás da nova troca de ataques.
Ao recorrer a Tiradentes para atacar adversários, Lula conseguiu o que queria: chamar atenção. Mas, como quase sempre acontece quando o Planalto troca diplomacia por palanque, a frase pode produzir mais ruído do que solução. E ruído, na política externa, costuma sair caro — às vezes em dólar.
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