O governo Lula abriu uma nova frente para tentar vender alívio no bolso do brasileiro: autorizou R$ 4 bilhões em recursos do Tesouro Nacional para abastecer linhas de crédito do Desenrola Adimplentes e do Fies Empreendedor. A promessa oficial é simples e sedutora: trocar dívidas caras por financiamentos mais baratos. A engrenagem, porém, tem um detalhe que merece lupa: o dinheiro público chega aos bancos com custo reduzido para que as instituições façam a ponte até o consumidor. Como sempre em Brasília, o socorro vem com discurso social, carimbo técnico e um boleto escondido na gaveta.
Do total, R$ 3 bilhões serão destinados ao Desenrola Adimplentes, voltado a trabalhadores informais que mantêm ou quase mantêm suas dívidas em dia, e R$ 1 bilhão irá para o Fies Empreendedor, pensado para beneficiários adimplentes do financiamento estudantil que queiram abrir ou expandir negócios. No Desenrola, o governo tenta alcançar quem não tem carteira assinada, não é servidor, aposentado ou pensionista, mas já paga crédito pessoal caro. A taxa ao consumidor poderá chegar a 1,99% ao mês, bem abaixo de linhas tradicionais como cartão, cheque especial e crédito pessoal sem garantia.
A medida, no entanto, escancara uma contradição política incômoda. O mesmo governo que reclama dos juros altos recorre ao Tesouro para tornar o crédito artificialmente mais barato, enquanto o sistema bancário segue preservado no centro da operação. O risco formal das operações fica com as instituições participantes, mas o desenho usa recursos públicos e garantias para reduzir o custo e atrair os bancos. Em português claro: o Planalto critica a febre, mas chama o banco para vender o termômetro — com desconto.
O tema conversa diretamente com o que o DFMobilidade já mostrou em “Bancos batem recorde sob Lula e lucram R$ 255 bilhões”, quando o setor financeiro apareceu no azul forte em meio ao crédito caro, e também com “Cartão de crédito vira armadilha: juros disparam para 435,9% ao ano e esmagam renda das famílias”, retrato da ponta mais cruel dessa história. O governo vende o programa como respiro para o bom pagador; a pergunta que fica é se será alívio real para famílias e pequenos empreendedores ou apenas mais uma vitrine eleitoral com juros subsidiados, bancos satisfeitos e o Tesouro fazendo pose de mágico.




