O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria usado palavrões, acusações de ingratidão e expressões ofensivas para se referir a ministros do Supremo Tribunal Federal durante os 580 dias em que permaneceu preso em Curitiba. As declarações são atribuídas ao petista pelo policial federal Jorge Chastalo Filho no livro “Banho de Sol: os 580 dias de Lula na prisão”, lançado nesta terça-feira (3) pela editora WMF Martins Fontes.
Entre os principais alvos estaria Edson Fachin, atual presidente do STF. Segundo Chastalo, Lula demonstrava irritação com decisões judiciais desfavoráveis e afirmou que nunca havia confiado no magistrado, indicado à Corte em 2015 pela então presidente Dilma Rousseff.
“Esse Fachin é um filho da puta mesmo, Chastalo. Eu não o indiquei para o STF durante meu mandato porque não confiava nele”, teria afirmado Lula, conforme a passagem divulgada da obra.
O relato prossegue com a descrição de uma suposta conversa entre Lula e Dilma sobre a indicação do jurista. O petista teria respondido à sucessora que a decisão caberia exclusivamente a ela, por estar no exercício da Presidência da República.
A indignação não teria parado na escolha do ministro. Em outra passagem, Lula teria associado a religiosidade de Fachin à falta de confiança que depositava nele.
“Eu achava ele um comedor de hóstia, um desses religiosos que comem hóstia hoje, mas fazem merda amanhã…”, teria declarado.
Na sequência, segundo o mesmo relato, Lula fez uma comparação com Jair Bolsonaro, mencionando uma declaração controversa do ex-presidente sobre o uso de um apartamento. A referência aparece como parte da fala atribuída ao petista, não como comprovação de qualquer conduta de Bolsonaro.
As críticas teriam ocorrido em um período de sucessivas derrotas judiciais do então ex-presidente, especialmente após decisões que impediam sua libertação. A retirada de pauta de um habeas corpus pelo ministro Fachin teria provocado uma das reações mais contundentes registradas no diário do policial.
O desgaste, entretanto, não se limitava a Fachin. A ministra Cármen Lúcia também teria sido alvo de comentários depreciativos. Lula, responsável por sua indicação ao Supremo em 2006, teria demonstrado arrependimento e a classificado como “falsa humilde”.
De acordo com Chastalo, o petista recordou conversas anteriores à nomeação da magistrada e demonstrou ressentimento diante de decisões que considerava contrárias aos seus interesses. Luiz Fux também aparece entre os ministros criticados, sobretudo após a suspensão de uma autorização para entrevistas de Lula durante o período de prisão.
Fux teria sido chamado de “cachorro pidão” e “canalha”. Em contrapartida, Gilmar Mendes e Celso de Mello receberam avaliações favoráveis, segundo o autor, por demonstrarem coragem diante de questões consideradas controversas pelo então detento. Folha +1
O livro apresenta uma dimensão pouco conhecida da convivência entre Lula e os agentes responsáveis por sua custódia. Chastalo acompanhava a rotina da carceragem da Polícia Federal em Curitiba e registrou conversas, visitas, episódios pessoais e reações políticas do ex-presidente em formato de diário.
A obra também descreve situações cotidianas, como pedidos de alimentação, os banhos de sol, as visitas familiares e a preocupação dos policiais com a segurança do preso. O autor relata momentos de cordialidade e de tensão, mostrando que a convivência extrapolava os procedimentos estritamente operacionais.
Um aspecto que chama a atenção é que Chastalo não se apresentava como adversário político de Lula. Em 2022, o policial chegou a declarar publicamente voto no petista. A informação confere uma particularidade ao testemunho, embora não substitua a necessidade de confirmação independente das conversas reproduzidas.
A publicação também expõe uma contradição histórica: Fachin, apontado como um dos principais alvos da irritação de Lula, foi o ministro que, em março de 2021, anulou as condenações do petista relacionadas à Lava Jato, ao reconhecer a incompetência da Justiça Federal de Curitiba. A decisão foi posteriormente confirmada pelo plenário do Supremo.
Lula havia deixado a prisão em novembro de 2019, depois que o STF alterou o entendimento sobre a execução da pena antes do trânsito em julgado. Desde seu retorno à Presidência, em janeiro de 2023, passou a manter relações institucionais com integrantes da Corte, incluindo magistrados mencionados no livro.
A WMF Martins Fontes decidiu lançar a publicação somente depois das eleições presidenciais de outubro de 2026, para evitar sua utilização como instrumento de campanha. Os primeiros cinco mil exemplares foram distribuídos às livrarias, e a editora anunciou uma nova tiragem de 15 mil unidades.
As declarações atribuídas a Lula permanecem baseadas no testemunho de Chastalo. Não há confirmação independente de que todas as palavras tenham sido pronunciadas exatamente como aparecem na obra. Até a divulgação das passagens, a assessoria presidencial e o STF não haviam apresentado manifestações sobre os relatos.
O conteúdo revela como o ambiente de tensão judicial e política durante a prisão teria afetado a percepção pessoal de Lula sobre integrantes da mais alta Corte do país. Entre a indignação atribuída ao então preso e a relação institucional mantida posteriormente pelo presidente, o livro registra uma diferença significativa entre as conversas privadas relatadas e o comportamento público do chefe do Executivo.




