Os cinco fatores que podem tirar Lula do poder

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A quatro dias do segundo turno, a tentativa de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta obstáculos que vão muito além das pesquisas eleitorais. A história, a geografia do voto, a abstenção, a articulação política e a economia formam uma combinação particularmente desfavorável ao presidente.

 

A política brasileira costuma produzir surpresas, mas raramente consegue escapar completamente dos números. E os números, neste momento, oferecem ao presidente Lula cinco motivos concretos para preocupação.

A vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista, não representa apenas uma vantagem de aproximadamente 2,2 milhões de votos. Revela um presidente que chega à reta final obrigado a recuperar terreno diante de um adversário que conseguiu transformar a oposição ao governo em maioria relativa nas urnas.

Existem cinco fatores que ajudam a compreender a dimensão desse desafio.

1. A história eleitoral joga contra Lula

Desde a redemocratização, em 1989, nenhum candidato que terminou o primeiro turno da eleição presidencial em segundo lugar conseguiu reverter o resultado no segundo turno.

Fernando Collor, Lula, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro, em suas respectivas vitórias, confirmaram a liderança conquistada na primeira votação. Fernando Henrique Cardoso resolveu suas duas eleições ainda no primeiro turno.

Isso não significa que uma virada seja impossível. Significa que Lula precisa realizar algo que nenhum outro presidenciável conseguiu em quase quatro décadas.

A matemática eleitoral não tem compromisso com discursos. Quem começa atrás precisa conquistar novos eleitores, preservar sua base e impedir o crescimento do adversário. São três tarefas simultâneas para uma campanha que dispõe de poucos dias.

2. Minas Gerais acendeu o sinal vermelho

Há uma peculiaridade na geografia eleitoral brasileira: desde 1989, todos os candidatos eleitos à Presidência também venceram em Minas Gerais.

O estado reúne realidades econômicas, sociais e culturais distintas. Seu eleitorado combina características do Sudeste, do Nordeste e do interior do país, funcionando como um importante termômetro político nacional.

No primeiro turno de 2026, Flávio Bolsonaro conquistou aproximadamente 5,77 milhões de votos mineiros, contra 5,18 milhões de Lula.

A vantagem de quase 600 mil votos não pode ser tratada como um detalhe regional.

Para vencer, Lula precisará contrariar duas tendências históricas simultaneamente: derrotar o vencedor do primeiro turno e conquistar a Presidência depois de perder em Minas Gerais.

Não é uma sentença eleitoral, mas certamente não é o cenário que qualquer candidato gostaria de enfrentar.

3. A abstenção pode não salvar o presidente

Uma das esperanças da campanha petista está na mobilização de eleitores que não compareceram às urnas em 4 de outubro.

A abstenção nacional atingiu 21,08%, representando aproximadamente 33,4 milhões de brasileiros.

O problema é que a distribuição dessas ausências não oferece uma solução tão simples para Lula.

Dos 12 estados em que o presidente venceu, nove registraram redução da abstenção em comparação com 2022. Em contrapartida, estados importantes conquistados por Flávio, como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, apresentaram índices superiores à média nacional.

Em outras palavras, existe também um contingente expressivo de eleitores ausentes em regiões favoráveis ao candidato do PL.

A campanha petista pode conseguir votos adicionais com maior comparecimento, mas a oposição dispõe da mesma oportunidade.

Acreditar que todos os eleitores que ficaram em casa votarão no governo é uma aposta, não uma estratégia comprovada.

4. Vinte governadores eleitos e uma máquina menos mobilizada

O quarto fator envolve uma mudança importante na dinâmica política dos estados.

Em 2026, nada menos que 20 governadores foram eleitos no primeiro turno. Trata-se do maior número registrado desde 1990.

Isso significa que apenas seis estados e o Distrito Federal terão disputas estaduais simultâneas à eleição presidencial no próximo domingo.

O efeito político merece atenção.

Sem candidatos ao governo disputando votos, parte das estruturas locais perde o incentivo imediato para realizar grandes mobilizações, organizar eventos, movimentar militantes e colocar equipes nas ruas.

Para Lula, que precisa superar uma desvantagem superior a dois milhões de votos, qualquer redução na capacidade de mobilização representa um obstáculo adicional.

Naturalmente, governadores eleitos, prefeitos e lideranças partidárias continuam capazes de atuar na campanha presidencial. A máquina política não desaparece depois do primeiro turno.

Entretanto, o esforço necessário para convencer aliados a trabalhar por uma eleição que já não é a deles tende a ser diferente.

E numa disputa apertada, organização territorial pode valer tanto quanto um bom discurso.

5. A economia pesa mais que qualquer propaganda

Este talvez seja o fator mais preocupante para Lula.

Presidentes candidatos à reeleição carregam uma responsabilidade que seus adversários não possuem: precisam responder diretamente pelas condições de vida da população.

Não basta apresentar estatísticas favoráveis, divulgar investimentos ou anunciar programas sociais. O eleitor confronta o discurso oficial com a própria realidade financeira.

Em setembro, 81,7% das famílias brasileiras estavam endividadas. A inadimplência atingia 29,6%, embora ambos os indicadores tenham apresentado pequena redução naquele mês.

É importante distinguir endividamento de inadimplência. Nem toda dívida representa dificuldade financeira. Ainda assim, o elevado comprometimento da renda familiar evidencia uma pressão econômica que merece atenção.

E existe uma diferença considerável entre a economia apresentada nos pronunciamentos presidenciais e a percepção de quem precisa equilibrar supermercado, energia, aluguel, cartão de crédito e prestações.

O eleitor pode até não acompanhar os indicadores macroeconômicos. Mas sabe exatamente quanto dinheiro sobra na conta depois de pagar as despesas.

É nesse terreno que a tentativa de reeleição se torna especialmente delicada.

A propaganda pode explicar resultados. Não consegue, sozinha, melhorar o poder de compra de uma família.

O desafio de Lula é maior que a vantagem de Flávio

Esses cinco fatores não tornam a vitória de Lula impossível. Eleições não são resolvidas por coincidências históricas, e as pesquisas mais recentes ainda mostram uma disputa tecnicamente equilibrada.

Entretanto, quando diferentes indicadores apontam dificuldades para o mesmo candidato, ignorá-los deixa de ser otimismo e passa a ser um erro de avaliação política.

Flávio Bolsonaro chega à decisão com a vantagem do primeiro turno, a vitória em Minas Gerais e um ambiente eleitoral no qual o desgaste do governo pode representar um ativo importante para a oposição.

Lula, por sua vez, precisa recuperar votos, mobilizar ausentes, reorganizar alianças e convencer uma parcela do eleitorado de que merece mais quatro anos no Palácio do Planalto.

A Presidência oferece visibilidade, estrutura e capacidade de articulação. Mas também transforma o ocupante do cargo no principal responsável político pelas insatisfações nacionais.

No fim, a eleição poderá ser decidida menos pelas promessas para o futuro e mais pelo julgamento que os brasileiros fazem do presente.

O governo ainda pode vencer nas urnas. O que não pode é imaginar que a força da máquina presidencial será suficiente para convencer um eleitor que já fez as contas — e não gostou do resultado.

 

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