O presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou de vez na crise que sacode o Supremo Tribunal Federal ao defender, nesta quarta-feira (9), a quebra completa dos sigilos das investigações do Banco Master. A manifestação ocorre depois de dias em que o Planalto tentou manter distância do confronto entre ministros. Lula agora sustenta que todos os envolvidos devem ser expostos, “seja quem for”, e critica vazamentos seletivos em pleno período eleitoral. O movimento também funciona como tentativa de impedir que o escândalo seja politicamente colado ao governo às vésperas das urnas.
A crise começou a ganhar contornos explosivos quando André Mendonça tornou público relatório da Polícia Federal contendo mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes. Moraes reagiu pedindo investigação contra Mendonça; Edson Fachin abriu procedimento para examinar as acusações; Mendonça afastou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada; a Advocacia-Geral da União recorreu e, nesta quarta, Flávio Dino derrubou o afastamento e determinou a reintegração dos dois. O grau de ruptura interna chegou ao ponto de Fachin cancelar a sessão do STF desta quarta-feira, fato extremamente incomum na história recente da Corte.
Há, porém, uma distinção fundamental. Alexandre de Moraes foi indicado ao Supremo por Michel Temer, não por Lula. Entre os ministros escolhidos pelo atual presidente, Cristiano Zanin e Flávio Dino aparecem no núcleo que tem se posicionado contra a condução de Mendonça, mas, até agora, não surgiram elementos públicos que os coloquem como beneficiários do esquema financeiro investigado. Situação diferente envolve Dias Toffoli, indicado ao STF por Lula em 2009: ele deixou a relatoria do caso Master depois que a PF apontou possível conflito de interesses relacionado a pagamentos discutidos por Vorcaro e seu cunhado envolvendo empresa da qual Toffoli é sócio; o ministro afirma que os valores eram lícitos e declarados. Paulo Gonet, escolhido por Lula para comandar a Procuradoria-Geral da República, também aparece mencionado em mensagens apreendidas, sem que isso, por si só, constitua prova de participação criminosa.
O problema político para Lula é que sua relação com o caso não começa agora. O presidente recebeu Vorcaro no Palácio do Planalto em dezembro de 2024, acompanhado de Guido Mantega, embora tenha afirmado posteriormente que avisou ao banqueiro que qualquer apuração seria conduzida tecnicamente. Hoje, além de administrar o desgaste eleitoral, Lula tem interesse institucional direto na preservação do comando da PF escolhido por seu governo e vê dois de seus ministros do STF — Dino e Zanin — posicionados no campo contrário a Mendonça. Ao exigir luz sobre tudo, o Planalto aposta que a transparência integral distribuirá responsabilidades para além de seu entorno. Resta saber se, quando todas as luzes forem acesas, o resultado será exatamente o que o governo espera.





