Ata divulgada nesta terça-feira reforça que descontrole das contas públicas pode dificultar novas quedas da Selic; taxa está em 14% ao ano
O Comitê de Política Monetária (Copom) voltou a colocar a política fiscal no centro das preocupações com a inflação. Na ata divulgada nesta terça-feira, 11 de agosto, após reduzir a Selic de 14,25% para 14% ao ano, o Banco Central reforçou que a condução das contas públicas precisa ser previsível e crível e voltou a defender sintonia entre as políticas fiscal e monetária. Traduzindo o economês: o BC começou a baixar os juros, mas deixou claro que a torneira não ficará aberta se Brasília continuar aumentando a percepção de risco.
O alerta ganha peso diante dos números recentes das contas federais. Em junho, o Governo Central registrou déficit primário de R$ 48,2 bilhões, acima dos R$ 44,2 bilhões negativos observados no mesmo mês de 2025. Mesmo com crescimento real de 10,3% da receita líquida, as despesas avançaram 9%. Para o Copom, uma política fiscal que pressione a demanda, aumente a incerteza ou desancore expectativas pode obrigar a política monetária a permanecer restritiva por mais tempo.
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O documento também registra incerteza elevada no exterior, especialmente pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio e pelas dúvidas em relação à política econômica dos Estados Unidos. No cenário doméstico, porém, o componente fiscal voltou a aparecer de maneira explícita no debate dos diretores. O sinal é importante porque expectativas sobre dívida, gastos e resultado fiscal afetam câmbio, inflação projetada e o prêmio exigido pelos investidores — justamente variáveis consideradas pelo Banco Central na calibragem dos juros.
A redução da Selic, portanto, não representa um salvo-conduto para o governo Lula. O Copom iniciou o movimento de flexibilização, mas continua cobrando uma política fiscal capaz de ajudar, e não disputar espaço, com o combate à inflação. Para consumidores e empresas, isso significa que novas quedas dos juros dependerão não apenas dos preços, mas também da confiança nas contas públicas. No fim das contas, Brasília pode pressionar o BC pela redução da Selic; a ata lembra que a caneta dos juros também lê a planilha dos gastos.




