Por: Lucas Santana
Na Bahia governada há duas décadas pelo PT, o asfalto parece ter adquirido um talento adicional: multiplicar patrimônio. Um terreno de 51 mil metros quadrados pertencente ao senador Jaques Wagner foi comprado por R$ 28 mil em 2000 — cerca de R$ 130 mil corrigidos — e negociado por R$ 15 milhões. A valorização real chegou a 11.400%, ou 115 vezes. A propriedade fica às margens da Via Metropolitana, rodovia estudada desde 2011 e contratada em 2014, quando Wagner ainda comandava o governo baiano.
A estrada começou a ser construída no governo de Rui Costa e foi inaugurada em 2018, consolidando um novo eixo de expansão imobiliária na Região Metropolitana de Salvador. Wagner sustenta que o traçado da rodovia cortou parte de sua propriedade e afirma ter aberto mão de receber indenização pela desapropriação. Sobre a multiplicação milionária, disse que “dá vontade de rir” e argumentou que é natural um imóvel valorizar ao longo de 26 anos. Natural, talvez; crescer 115 vezes já exige um solo politicamente bastante fértil.
A transferência do terreno acabou impedida após uma ordem de indisponibilidade de bens determinada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, no âmbito da Operação Compliance Zero. A medida está relacionada à investigação sobre possíveis vantagens indevidas envolvendo o Banco Master, e não especificamente à construção da rodovia. Wagner nega qualquer ilegalidade, não foi denunciado nem se tornou réu. Mesmo assim, deixou em junho a liderança do governo Lula no Senado, cargo que ocupava como um dos principais operadores políticos do presidente.
O episódio amplia um desgaste que já chegou à porta do Palácio do Planalto. O DFMobilidade mostrou que a Polícia Federal apura repasses do Master a empresa ligada à nora de Jaques Wagner e também registrou como a saída do senador da liderança aprofundou a crise política de Lula. Na velha Bahia petista, a rodovia era apresentada como vetor de desenvolvimento; agora, resta explicar por que um dos terrenos mais beneficiados pelo novo caminho pertencia justamente ao homem que ajudou a pavimentá-lo.




