“É preciso ter coragem”, diz Mendonça ao se declarar o elo mais frágil no caso Master

Foto: printscreem
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Relator no Supremo afirma que não teme combater o crime, rechaça prisão para forçar delação e aponta risco pessoal diante da investigação sobre Daniel Vorcaro

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), fez nesta terça-feira, 16 de junho de 2026, uma das falas mais contundentes desde que assumiu a relatoria do caso Banco Master. Em manifestação direta, o magistrado afirmou que atuar no processo exige coragem, disse que não teme a morte e apontou a própria segurança como ponto sensível diante do avanço das investigações envolvendo Daniel Vorcaro.

A declaração ocorreu em meio à escalada do caso Master/Vorcaro, que envolve suspeitas de fraudes financeiras, lavagem de dinheiro, corrupção, obstrução de Justiça e possível atuação de uma rede de intimidação ligada ao ex-controlador do Banco Master.

“Para ser ministro do Supremo é preciso ter coragem”, recordou Mendonça, citando uma conversa anterior com o ministro Gilmar Mendes. Em seguida, foi ainda mais direto: “Não tenho medo da morte, quanto mais de ser ministro de um tribunal. Não tenho medo de combater o crime aplicando a lei. Não tenho medo de absolver quem é inocente”.

A fala ganhou peso adicional porque o ministro vinculou a necessidade de coragem ao conteúdo das investigações. Segundo Mendonça, a representação da Polícia Federal descreve uma estrutura liderada por Daniel Vorcaro que reuniria personagens ligados a núcleos de intimidação, incluindo um “sicário”, policiais federais ainda sob investigação e empresários ligados ao jogo do bicho.

O DFMobilidade já havia mostrado que Daniel Vorcaro foi preso em nova fase da Operação Compliance Zero, investigação que colocou o Banco Master no centro de um dos casos financeiros mais graves dos últimos anos.

Na manifestação, Mendonça fez questão de separar prisão preventiva de colaboração premiada. Segundo ele, “não se prende para delação”. O ministro classificou essa prática como “abjeta” e afirmou que a prisão só se justifica quando há crime em curso, tentativa de obstrução da Justiça, ocultação de provas ou continuidade delitiva.

“Seria abjeto fazer isso. E eu não me presto ao trabalho dos abjetos”, afirmou.

O recado tem endereço certo. O caso Master passou a girar também em torno da tentativa de Daniel Vorcaro de negociar uma delação premiada. O DFMobilidade acompanhou esse movimento ao mostrar que a delação de Vorcaro entrou na hora da verdade e poderia ampliar o cerco no caso Banco Master. Depois, o portal registrou que a Polícia Federal rejeitou a delação de Vorcaro após avaliar que a proposta não apresentava utilidade suficiente para as investigações.

Mendonça afirmou ainda que levou quatro anos no Supremo para decretar a primeira prisão e disse não ter prazer nesse tipo de decisão. “Não tenho prazer em prisão, ao contrário, tenho pesar. É difícil decretar uma prisão”, declarou.

A parte mais grave da fala, no entanto, veio quando o ministro tratou da própria condição dentro do processo. Ao mencionar a existência de pessoas ainda não identificadas nas investigações, Mendonça levantou a hipótese de que a interrupção do avanço do caso poderia passar por uma ameaça direta ao relator.

“Talvez seja muito simples hoje acabar com a investigação. Bastam alguns desses desconhecidos, talvez, atentar contra a integridade física do relator. É disso que nós estamos tratando”, afirmou.

Em seguida, Mendonça resumiu a tensão institucional em uma frase que deve repercutir no meio jurídico e político: “Eu sei que hoje, para parar do jeito que está, o polo mais frágil sou eu. Mas, como eu disse, é preciso ter coragem”.

A declaração expõe um aspecto pouco tratado publicamente no caso Master: a segurança de quem conduz a investigação no Supremo. Não se trata apenas de um processo financeiro ou de uma disputa sobre delação premiada. Na leitura apresentada pelo relator, há elementos de possível intimidação, infiltração e articulação criminosa capazes de atingir o próprio funcionamento da Justiça.

O caso também tem reflexos diretos no Distrito Federal. O DFMobilidade mostrou que o GDF agiu para proteger o BRB de risco sistêmico após a crise envolvendo o Banco Master. A turbulência levou o banco público local a adotar medidas para recompor confiança, inclusive com aporte bilionário, como registrado na matéria BRB aprova aporte bilionário e tenta virar a página após crise do caso Master.

A governadora Celina Leão também já se posicionou sobre o tema. Em entrevista, disse que teria conduzido o episódio de forma diferente e afirmou que “não teria crise do BRB e Master”, conforme publicado pelo DFMobilidade na reportagem “Não teria crise do BRB e Master”, diz Celina ao afirmar que foi contra operação e não manteria Paulo Henrique Costa.

A fala de André Mendonça recoloca o caso em outro patamar. O processo deixa de ser apenas uma investigação sobre o colapso de um banco e passa a tocar em temas mais profundos: a integridade das instituições, a proteção de magistrados, a infiltração de interesses privados em estruturas públicas e a capacidade do Estado de enfrentar grupos com dinheiro, influência e métodos de intimidação.

No centro desse tabuleiro, o ministro procurou deixar uma mensagem clara: não pretende decidir sob pressão, não busca protagonismo midiático e não vê a prisão como moeda de troca para delação.

Mas também deixou algo ainda mais forte no ar. Quando um relator do Supremo afirma ser “o polo mais frágil” de uma investigação dessa dimensão, a frase ultrapassa o processo. Vira alerta institucional. E alerta, em Brasília, quando é ignorado, costuma mandar a conta depois — com juros, correção e constrangimento público.

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