Governo quer mais etanol na gasolina para segurar preço, mas conta ainda não fecha na bomba

Foto: Reprodução
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O governo federal vai levar ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) uma proposta para elevar de 30% para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina. A medida, chamada tecnicamente de E32, é apresentada pelo Ministério de Minas e Energia como uma resposta à pressão sobre os combustíveis e à necessidade de reduzir a dependência de importações de gasolina.

Segundo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, a adoção do E32 pode levar o Brasil à autossuficiência em gasolina. A pasta afirma que o aumento da participação do etanol anidro reduziria a necessidade de importação do combustível fóssil e ajudaria a dar “tranquilidade no suprimento”.

A proposta ocorre menos de um ano depois da entrada em vigor do E30. Desde 1º de agosto de 2025, a gasolina comum vendida no país passou a ter 30% de etanol anidro, conforme decisão anterior do CNPE. Na ocasião, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) ajustou especificações técnicas para garantir a qualidade do produto comercializado nos postos.

O Ministério de Minas e Energia sustenta que a elevação para 32% já teria respaldo técnico. De acordo com a pasta, os testes realizados quando o país adotou o E30 também dariam base para a nova mistura. A Lei nº 14.993/2024, conhecida como Lei do Combustível do Futuro, autorizou a elevação do teor de etanol anidro na gasolina comum até o limite de 35%, abrindo caminho legal para novas mudanças.

Na prática, o governo tenta transformar o etanol em colchão contra oscilações externas da gasolina. A lógica é simples: quanto maior a parcela de biocombustível nacional na mistura, menor a necessidade de gasolina importada. O discurso oficial é bonito; o teste real, como sempre, será no painel do posto — onde promessa econômica costuma evaporar mais rápido que álcool em dia quente.

A estimativa informada pelo Correio Braziliense é que a ampliação da mistura poderia reduzir em cerca de 450 milhões de litros as importações de gasolina. Outros levantamentos do setor apontam número próximo, de aproximadamente 454 milhões de litros em 180 dias, além de possível redução de emissões de carbono.

A medida, porém, não é consenso absoluto. Representantes do setor automotivo têm cobrado cautela e mais testes antes da elevação para 32%, especialmente por causa dos impactos em desempenho, consumo, emissões e compatibilidade com diferentes motores. A indústria já havia questionado o avanço da mistura em reuniões anteriores do CNPE.

Além disso, o efeito direto no preço final ao consumidor não é automático. A gasolina vendida na bomba depende de uma cadeia que inclui petróleo, câmbio, impostos, logística, margens de distribuição e revenda. Aumentar o etanol pode aliviar parte da pressão, mas não garante, sozinho, queda imediata no preço pago pelo motorista.

O governo também avalia a medida como temporária e excepcional. Informações divulgadas no setor indicam que a vigência inicial poderia ser de 180 dias, com possibilidade de prorrogação por igual período. A ideia seria usar o E32 como instrumento de segurança energética em um momento de maior tensão no mercado internacional de combustíveis.

Se aprovada pelo CNPE, a mudança representará mais um passo na política de ampliação dos biocombustíveis na matriz nacional. Para o governo, é uma agenda de transição energética e soberania no abastecimento. Para o consumidor, a pergunta continuará sendo menos ideológica e mais objetiva: quando — e quanto — isso vai reduzir na bomba?

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