Evangélicos do PT estão acionando o vocabulário bíblico para retratar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como “falso profeta” e explorar, entre os fiéis, as contradições nas versões dadas pelo pré-candidato à Presidência da República sobre a sua relação com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
As avaliações ocorrem em um momento de mobilização do Setorial Inter-religioso do PT para o IV Encontro Nacional de Evangélicos do Partido dos Trabalhadores, marcado para 8 de junho, na sede do PT, em Brasília. A programação terá como tema “Fé, Justiça, Democracia e as Eleições 2026”, com debates sobre estratégias regionais.
Procurado pela reportagem, o senador não se manifestou.
Ao Estadão/Broadcast, o coordenador nacional do Setorial Inter-religioso do PT, Gutierres Barbosa, diz que, enquanto lideranças de grandes denominações evangélicas já demonstraram apoio ao senador Flávio Bolsonaro e ao ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), o PT deve ampliar o olhar sobre as igrejas espalhadas pelo País.
O Setorial Inter-religioso do PT é um dos 18 grupos temáticos da legenda. Apesar de o segmento evangélico ser apontado por pesquisas eleitorais como um dos mais resistentes ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Setorial petista diz ter crescido.
De acordo com a coordenação, o grupo foi o que mais cresceu desde sua criação, em 2020. São 10 mil integrantes, dos quais 26% são evangélicos. Segundo o Setorial, 20% dos petistas eleitos em 2024 são evangélicos, enquanto, em 2020, eram 13%. Em abril de 2025, a coordenação informou que o PT alcançou 500 mil filiados evangélicos, de um total de 3 milhões.
Segundo Barbosa, que é evangélico e vice-presidente da Igreja Batista de Nazareth, em Salvador (BA), a ideia do setor petista é “aproveitar” as revelações sobre o Banco Master. Na semana passada, o portal The Intercept Brasil revelou que Flávio negociou com o dono do banco, Daniel Vorcaro, R$ 134 milhões em repasses para o filme “Dark Horse”, uma cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
“Vamos aproveitar isso. Tem um desgaste muito grande do Bolsonaro, não só pela questão do Banco Master. Agora, caiu a máscara. A Bíblia diz que, no fim dos tempos, iria surgir o falso profeta. O Flávio é um falso profeta”, diz Barbosa ao Estadão/Broadcast, em referência a um versículo do Evangelho de Mateus. “Vamos chamar pastores, presbíteros, pessoas que têm posição dentro da igreja, cantores; vamos conversar com todo mundo.”
‘Filho do diabo’
Com foco na condenação do que chama de “mentira”, Barbosa menciona o livro de João ao lembrar que Flávio negava a existência de relação com Vorcaro. Questionado se a revelação abre margem para um diálogo do PT com os evangélicos, o petista afirma: “Sim, total. A Bíblia diz que o diabo é o pai da mentira. Eu diria que o Flávio é o filho do diabo.”
Para o coordenador do Setorial, o áudio em que Flávio conversa com Vorcaro traz elementos que “colocam o cristão para raciocinar” e cria um “ambiente revelador” para a maioria dos evangélicos. “Ele é um falso profeta mesmo. Eu não vejo outra nomenclatura à luz da Bíblia. No áudio dele, ficou claro que tem uma relação íntima.”
O coordenador do Setorial Inter-religioso do PT em Alagoas, Wellington Santos, também evoca o Evangelho de João ao criticar Flávio por negar relação com Vorcaro. Pastor na Igreja Batista do Pinheiro, em Maceió, e pré-candidato a deputado federal, Santos corrobora com a expectativa de que a revelação impacte na análise do cristão.
“Se o pai da mentira é o diabo, toda vez que eu minto, estou tomando por pai o diabo”, disse. O petista acrescenta: “Ele mentiu, porque o seu personagem sofreu uma fissura. Porque o evangélico diz assim: peraí, a gente pode confiar na sua palavra? Quem garante que o senhor não está mentindo?”.
O pastor afirma ainda que o caso dá caminhos para dialogar com os evangélicos. “Para esse público, importa de maneira acrítica ou crítica o que o texto sagrado diz. Isso será suficiente para fazê-lo mudar o voto? Espero que sim. E nós vamos trabalhar de maneira intensa, mas eu defendo que seja respeitosa.”
A vereadora petista Neia Marques, de Belém do Pará, é diaconisa na igreja pentecostal Projeto Vida e diz ver “oportunidade” no escândalo do Banco Master para discutir com evangélicos. Neia diz que já houve debates políticos em sua célula, grupo comum em igrejas que promove reuniões entre fiéis.
“Isso aí a gente está aproveitando para mostrar para o povo evangélico quem eles são verdadeiramente”, declarou. Ela acrescenta: “É a oportunidade de a gente mostrar que eles são mentirosos e aproveitar e levantar o nome do Lula no meio do povo evangélico”.
Flávio ligou Lula ao diabo
Em 15 de maio, na semana passada, Flávio também usou o vocabulário religioso para se referir a Lula. “Se ele está com o diabo, eu estou com Deus. Esse é o projeto de Deus”, declarou, num evento em Campinas (SP). O senador tem negado irregularidades e dito que apenas buscou investimentos privados para um fundo que também é privado.
“Buscamos recursos privados, tudo certinho, dentro da lei. É óbvio que lá atrás a gente não imaginava que o investidor chegaria ao momento em que está hoje”, disse, na ocasião.
Flávio deve participar no sábado, 23, da Marcha para Jesus no Rio de Janeiro. O evento, um dos mais importantes para o público evangélico, será realizado na Avenida Presidente Vargas, a partir das 14h. A participação reforça a tentativa de interlocução de Flávio com o segmento religioso.
Estadão Conteúdo




