Declaração sobre a Guerra da Tríplice Aliança provoca reação em Assunção, enquanto ataques do presidente argentino levam a disputa política brasileira para dentro da diplomacia regional
A nova tensão começou em 24 de julho, durante visita à fábrica da Avibras, em Jacareí. Ao defender investimentos militares, Lula afirmou que o Paraguai “resolveu invadir o Brasil”, citou Corumbá e acrescentou Uruguai e Argentina à ofensiva. Parlamentares paraguaios acusaram o presidente de minimizar a tragédia nacional; a Câmara aprovou por unanimidade uma declaração de repúdio e cobrou a devolução do canhão “Cristiano” e de outros troféus de guerra. Nesta sexta-feira (31), o embaixador brasileiro em Assunção deverá receber uma nota oficial do governo Santiago Peña. Até agora, porém, a artilharia permanece diplomática — muito barulho, nenhuma fronteira fechada.
A verdade histórica não cabe inteira em uma frase de comício. A intervenção militar brasileira na guerra civil uruguaia, em 1864, antecedeu a reação de Solano López, que apreendeu o navio brasileiro Marquês de Olinda, declarou guerra e invadiu a então província de Mato Grosso. Depois, tropas paraguaias entraram em território argentino tentando alcançar o Rio Grande do Sul. Lula acertou ao lembrar que o Brasil foi invadido, mas embaralhou os fatos ao afirmar que o Paraguai também invadiu o Uruguai. Assunção, por sua vez, também simplifica a história quando apresenta o país apenas como vítima: o Paraguai foi devastado, mas López escolheu a escalada militar.
A comparação com Javier Milei mostra uma crise mais grave. O argentino veio ao Brasil apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro, participou de evento partidário e atacou pessoalmente Lula, o governo brasileiro e o ministro Alexandre de Moraes. O Itamaraty respondeu convocando o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas e cobrando explicações da representação argentina. Diferentemente do caso paraguaio, não se trata apenas de uma disputa sobre o passado, mas da participação aberta de um chefe de Estado estrangeiro na eleição brasileira. O risco econômico também é maior: as exportações brasileiras para a Argentina cresceram 31,4% em 2025, impulsionadas principalmente pela indústria automotiva.
Eleitoralmente, os episódios têm efeito duplo. A oposição ganha argumentos para acusar Lula de transformar improvisos verbais em crises internacionais; o Planalto, por outro lado, pode explorar os ataques de Milei como prova de ingerência estrangeira e alimentar um discurso de defesa da soberania. No bolso do brasileiro, nada mudou por enquanto, mas uma escalada atingiria o comércio fronteiriço, a cooperação contra o crime organizado, o Mercosul, a cadeia automotiva e a administração de Itaipu — responsável por cerca de 8,6% da energia consumida no Brasil. O que importa ao cidadão não é decidir quem venceu uma discussão sobre uma guerra encerrada em 1870, mas impedir que o palanque de 2026 prejudique empregos, energia e segurança em 2027.
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