Quer dizer que Globo quer metroviário ganhando pouco?

Foto: Ag. brasília
Foto: Ag. brasília

A TV Globo DF resolveu colocar os contracheques dos empregados do Metrô-DF no banco dos réus. Destacou pagamentos líquidos superiores a R$ 70 mil e apresentou os números sob a moldura dos “salários acima da média”. Transparência é indispensável, principalmente quando há dinheiro público envolvido. O que não pode é transformar uma folha excepcional em salário mensal permanente sem explicar, centavo por centavo, o que compõe aquele pagamento. Valor isolado impressiona; contexto esclarece. E jornalismo deveria esclarecer antes de impressionar.

A pergunta que ficou no ar é inevitável: a Globo quer que metroviário ganhe pouco? Um pagamento registrado em determinado mês pode reunir salário-base, férias, horas extraordinárias, adicionais, indenizações, diferenças acumuladas ou valores reconhecidos judicialmente. Sem essa separação, cria-se no imaginário popular a figura de uma casta ferroviária nadando em dinheiro público. Se existem irregularidades, que sejam investigadas. Mas, se os pagamentos decorrem de direitos trabalhistas ou decisões judiciais, a manchete deixa de fiscalizar o poder e passa a condenar o trabalhador.

O episódio também não pode ser afastado do ambiente político que cerca a companhia. A concessão do Metrô-DF à iniciativa privada já apareceu nos planos do governo local e continua provocando reações na Câmara Legislativa. O roteiro é antigo: primeiro, pinta-se a empresa pública como cara, acidentada e ineficiente; depois, surge algum salvador oferecendo a privatização como remédio milagroso. Em temporada eleitoral, também aparecem os cavaleiros do apocalipse metroviário: num dia exploram uma queda na escada; no outro exibem um incidente operacional; depois posam nas redes sociais como defensores apaixonados do sistema.

Salários públicos podem e devem ser fiscalizados, regulamentados e confrontados com a legislação. Contudo, fiscalização não é linchamento, e transparência não pode servir de biombo para precarizar carreiras técnicas. O Metrô-DF transporta milhares de pessoas sob a responsabilidade de operadores, técnicos, engenheiros, agentes de segurança e profissionais submetidos a riscos que raramente ganham dois minutos no telejornal. Se há distorção, corrija-se. Se há ilegalidade, puna-se. Mas criminalizar uma categoria inteira porque alguns contracheques chamaram atenção é jornalismo de calculadora: soma cifras, multiplica indignação e subtrai o contexto.

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