O Alvo

file_00000000c968720ea6ed92e61d4dd95e

Na política, há momentos em que o debate deixa de ser disputa de ideias e passa a ser operação de desgaste. No Distrito Federal, esse movimento começa a ficar claro: a governadora Celina Leão virou o alvo preferencial de uma oposição que busca sobreviver ao próprio vazio de projeto.

Celina assumiu o Governo do Distrito Federal em 30 de março de 2026, após a renúncia de Ibaneis Rocha para cumprir o prazo eleitoral de desincompatibilização. Desde então, passou a ocupar não apenas o cargo mais importante da capital da República, mas também o centro da artilharia política de quem enxerga em sua ascensão uma ameaça concreta para 2026.

O roteiro é conhecido. Primeiro, tenta-se transformar qualquer ato administrativo em suspeita. Depois, fabrica-se uma narrativa. Em seguida, espalha-se a dúvida como se dúvida fosse prova. Por fim, cobra-se explicação sobre aquilo que nunca foi demonstrado. É o velho método da política de destruição: quando não se tem obra, entrega ou voto suficiente, tenta-se produzir desgaste.

Nesse tabuleiro aparecem nomes como Leandro Grass, Ricardo Capelli e José Roberto Arruda. Cada um, à sua maneira, tenta ocupar espaço no debate público. Grass representa o campo petista e a oposição ideológica ao atual grupo político do DF. Capelli, ligado ao governo federal e hoje presidente da ABDI, movimenta-se no ambiente nacional com olhos voltados para Brasília. Arruda, por sua vez, ainda carrega o peso jurídico e político de sua trajetória, com decisões recentes mantendo sua inelegibilidade em razão de processos ligados à Operação Caixa de Pandora.

O problema é que a política brasiliense não se move apenas pelos grandes nomes. Há uma rede inteira orbitando o poder: dirigentes partidários, lideranças comunitárias, assessores, militantes digitais, pré-candidatos proporcionais e pequenos grupos interessados em alguns segundos de holofote. Em ano pré-eleitoral, muita gente descobre que atacar quem está no centro do poder rende curtidas, convites, espaço em grupos de WhatsApp e, quem sabe, uma fatia maior na divisão interna dos partidos.

É nesse ponto que entra o dinheiro público da política. O próprio Tribunal Superior Eleitoral explica que os partidos contam com recursos públicos por meio do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral, instrumentos usados para manter estruturas partidárias e financiar campanhas. O Fundo Partidário, por exemplo, é composto por dotações orçamentárias da União, multas eleitorais e outros recursos previstos em lei. Também pode bancar atividades rotineiras das legendas e, desde alterações legais, até impulsionamento de conteúdo na internet.

Ou seja: há um ecossistema político sustentado por dinheiro público. Não se trata de afirmar que exista ilegalidade automática nisso, pois o financiamento partidário é previsto em lei. Mas é legítimo questionar quando essa estrutura deixa de servir ao debate democrático e passa a alimentar campanhas de desconstrução pessoal, militância profissionalizada e ataques embalados como “denúncias” sem lastro suficiente.

Celina Leão virou alvo porque representa continuidade administrativa, força eleitoral e presença territorial. É mulher, tem trajetória própria, conhece a máquina pública e ocupa hoje a cadeira que todos desejam. No jogo bruto da política, isso basta para colocá-la na mira.

A oposição sabe que, para enfrentá-la, precisará mais do que discurso inflamado. Precisará convencer o eleitor de Brasília, que costuma ser mais exigente, mais informado e menos tolerante com teatro político barato. E é justamente por isso que a estratégia dos adversários parece apostar na repetição: repetir suspeitas, repetir ataques, repetir insinuações. A lógica é simples: se não dá para vencer no argumento, tenta-se vencer pelo cansaço.

O caso Banco Master também passou a ser usado como munição política. O tema exige apuração séria, responsabilidade institucional e transparência. Reportagens internacionais registraram a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, investigações da Polícia Federal e medidas do BRB para fortalecer sua estrutura de capital, incluindo aumento de capital aprovado por acionistas e tratativas para reorganizar ativos ligados ao Master.

Mas há uma diferença entre cobrar explicações e tentar condenar politicamente alguém antes dos fatos. Na posse, Celina declarou que o BRB é patrimônio do povo do DF, afirmou que não participou nem foi consultada sobre decisões envolvendo a compra do Banco Master e defendeu que todas as respostas venham à luz.

Enquanto isso, no plano nacional, o governo Lula também enfrenta seus próprios desgastes. A crise dos descontos indevidos no INSS atingiu milhões de aposentados e pensionistas. Em depoimento à CPMI, o presidente do INSS informou que mais de seis milhões de beneficiários já haviam pedido ressarcimento e que R$ 2,9 bilhões tinham sido devolvidos a 4,2 milhões de pessoas lesadas.

É nesse ambiente que parte do petismo tenta deslocar o foco. Quando o governo federal enfrenta crises sensíveis, a militância procura novos alvos. E Celina, por estar no comando do DF e simbolizar um campo político adversário ao lulismo, torna-se peça central dessa engrenagem.

A política, no entanto, tem uma regra que muitos estrategistas esquecem: excesso de ataque também revela fraqueza. Quando todos miram a mesma pessoa, acabam confirmando sua relevância. Quando uma governadora passa a ser atacada por grupos tão diferentes, de petistas a adversários locais em busca de sobrevida eleitoral, o recado é cristalino: ela virou o obstáculo a ser removido.

Mas Brasília não é curral eleitoral. O eleitor brasiliense convive diariamente com o centro do poder, acompanha crises nacionais de perto, sabe distinguir disputa legítima de oportunismo e costuma desconfiar de narrativas montadas às pressas. É um eleitor acostumado ao barulho da política, mas não necessariamente seduzido por ele.

Por isso, transformar Celina Leão em alvo pode até render manchetes, cortes de vídeo e aplausos em bolhas militantes. Mas há uma distância enorme entre barulho organizado e convencimento popular. No fim, quem decide não é a patrulha digital, nem o pré-candidato em busca de curtida, nem o militante financiado por estrutura partidária.

Quem decide é o eleitor de Brasília.

E esse eleitor, ao contrário do que alguns imaginam, não costuma comprar narrativa vencida em promoção.

Comentários

Políticas de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos fornecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.