Grass já fala em apoio de Arruda no segundo turno — falta combinar com as urnas

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Eu começaria pelo básico: quem garantiu que haverá segundo turno? Leandro Grass, “pupilo do 9 dedos” já discute a possibilidade de receber apoio de José Roberto Arruda , o “encantador de serpentes”, numa etapa da eleição à qual nenhum dos dois chegou. Enquanto essa engenharia política é desenhada, Celina Leão, a Leoa, aparece na frente nas pesquisas. Na Quaest de 8 de setembro, tinha 35%, contra 18% de Arruda e 17% de Grass. No Datafolha de 11 de setembro, Celina aparecia com 40%, Arruda com 17% e Grass com 16%. Nenhum desses levantamentos demonstra vitória dela no primeiro turno — que exige maioria dos votos válidos —, mas ambos deixam uma pergunta incômoda no ar: e se todo esse namoro para outubro nem tiver segundo capítulo?

 

É por isso que acho curioso ver Grass abrindo a porta para Arruda agora. Não existe acordo anunciado entre os dois; existe uma declaração pública de Grass dizendo que aceitaria esse apoio. Mas política também é feita de sinais. E o sinal é cristalino: antes de saber quem estará vivo eleitoralmente no dia seguinte ao primeiro turno, já tem gente escolhendo companhia para a festa. É quase como reservar a suíte de núpcias antes de descobrir se haverá casamento.

 

E aqui a memória ajuda. Grass nem conseguiu unificar o próprio campo. PT e PSB chegaram separados à eleição do DF, apesar da aliança nacional entre as legendas. Ricardo Cappelli. Pupilo de Flávio Dino, ofereceu a vice a Grass, não houve acordo e, no meio da disputa, Cappelli chegou a classificar uma crítica do petista como “ato de imaturidade”. Agora imagine a fotografia: Grass não compôs com Cappelli, adversário do mesmo campo político, mas admite receber Arruda num eventual segundo turno. Você não precisa inventar contradição alguma. Ela já vem pronta.

 

Se alguém quiser aplicar uma lente maquiaveliana ao episódio, nem precisa recorrer aos clássicos: basta olhar para agosto. O Avante de Gim Argello foi um dos primeiros partidos a embarcar no projeto de Arruda. A legenda esperava indicar o vice. Arruda escolheu Luiz Pitiman. O Avante rompeu. Jorginho Argello, filho de Gim e nome cotado para a vaga, resumiu o sentimento em três palavras: “fomos traídos”. E tem uma cereja nessa sobremesa política: depois do rompimento, Jorginho anunciou justamente apoio a Leandro Grass.

 

Está vendo como funciona? Ontem, Arruda e Gim estavam no mesmo projeto; depois, romperam. Grass e Cappelli pertencem ao mesmo campo nacional, mas disputam separados no DF. Agora Grass admite o apoio de Arruda. Em política, alianças muitas vezes duram exatamente até o instante em que deixam de ser úteis. Não é profecia de traição. É uma sequência recente de fatos que ensina bastante sobre a durabilidade das juras eleitorais.

 

E Arruda ainda carrega um problema anterior a qualquer conversa sobre apoio: seu próprio registro de candidatura foi indeferido por unanimidade pelo TRE-DF em 3 de setembro. Ele recorreu ao TSE e continua autorizado a fazer campanha enquanto o processo está sub judice. Portanto, temos uma situação quase barroca: Grass fala em receber, no segundo turno, o apoio de um adversário que ainda discute nos tribunais se terá o registro deferido — para uma segunda etapa que também não sabemos se existirá.

 

E os personagens conhecem controvérsia de perto. Arruda deixou o governo em meio à Caixa de Pandora e sua situação eleitoral atual decorre de condenações por improbidade que voltaram ao centro da discussão sobre inelegibilidade. Gim Argello foi condenado pelo TRF4 por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, com pena então fixada em 11 anos e oito meses no processo ligado à Lava Jato. Não são fofocas de corredor; são registros judiciais da trajetória política de ambos.

 

No fim, talvez este seja o ponto mais interessante: estão discutindo quem apoia quem antes de descobrir quem sobra. Grass precisa ultrapassar adversários e chegar ao segundo turno. Arruda precisa, além dos votos, resolver sua situação jurídica. Cappelli tenta sobreviver eleitoralmente fora da chapa petista. E Celina observa tudo isso da primeira colocação nas pesquisas.

 

Eu esperaria as urnas antes de mandar imprimir a fotografia do abraço. Brasília já produziu alianças improváveis demais para duvidar de qualquer composição. Mas produzir um segundo turno por antecipação é outra história. Primeiro é preciso que ele exista.

 

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