Governadora determina apuração externa, PAD interno e ação da PGDF para buscar ressarcimento a servidores, aposentados e pensionistas em caso de descontos irregulares
A governadora Celina Leão determinou a contratação de uma auditoria externa na folha de pagamento do Governo do Distrito Federal para apurar denúncias de possíveis irregularidades em descontos feitos nos salários, benefícios, aposentadorias e pensões de servidores públicos. A medida será acompanhada de um Processo Administrativo Disciplinar interno na Secretaria de Economia e de atuação da Procuradoria-Geral do Distrito Federal para avaliar meios legais de eventual ressarcimento.
A decisão ocorre em meio aos desdobramentos da Operação Juro Zero, deflagrada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, que investiga suspeitas de fraudes relacionadas a descontos em folha de servidores do DF. A apuração mira a atuação de agentes públicos e privados em operações vinculadas a consignações, antecipação salarial, associações e empresas que teriam se beneficiado de cobranças questionadas pelos investigadores.
Nas redes sociais, Celina afirmou que havia determinado, ainda na semana passada, que o secretário de Economia, Valdivino de Oliveira, providenciasse a contratação da auditoria independente. A governadora também disse que a folha de pagamento será examinada com foco nos descontos aplicados a servidores ativos, inativos e pensionistas.
A frase escolhida por Celina para resumir a reação do Palácio do Buriti foi direta: salário, aposentadoria e pensão de servidor são “sagrados”. Em política, quando a palavra sagrado entra na folha de pagamento, é sinal de que o contracheque deixou de ser apenas número e virou trincheira.
A auditoria externa deverá funcionar como uma segunda camada de verificação sobre a estrutura de descontos, autorizações, convênios e rubricas usadas na folha do GDF. O objetivo declarado é identificar se houve retirada indevida de recursos e, em caso positivo, apontar caminhos para devolução aos atingidos.
Paralelamente, o PAD interno ficará sob responsabilidade da Secretaria de Economia. Esse procedimento administrativo tem a função de apurar condutas de servidores ou agentes públicos eventualmente envolvidos em falhas, omissões ou irregularidades. Ainda não há conclusão sobre responsabilidades individuais, nem definição pública sobre valores a serem ressarcidos.
A PGDF foi acionada para estudar medidas legais que possam garantir a recuperação de recursos, caso a auditoria ou as investigações confirmem descontos indevidos. Na prática, o governo tenta separar duas frentes: a apuração criminal conduzida pelo Ministério Público e a resposta administrativa dentro da máquina pública distrital.
A Operação Juro Zero foi aberta para investigar um suposto esquema envolvendo descontos lançados diretamente na folha de pagamento dos servidores. Segundo o MPDFT, uma das frentes apura operações de antecipação salarial apresentadas como sem ônus para o Distrito Federal, mas que, conforme a investigação, teriam funcionado como crédito com cobrança de encargos financeiros.
O Ministério Público também investiga descontos vinculados a associações e empresas relacionadas a benefícios associativos e de saúde. A suspeita é de que algumas rubricas possam ter sido usadas de forma incompatível com a finalidade declarada ou sem autorização válida dos servidores.
Entre os órgãos e instituições alcançados pelas diligências estão a Secretaria de Economia, o Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal, o Banco de Brasília, a BRB Serviços e o PicPay, além de entidades associativas e pessoas físicas. As buscas, por si só, não significam condenação nem comprovação de culpa. Significam que há indícios considerados suficientes para aprofundar a investigação.
A Secretaria de Economia informou, em nota divulgada após a operação, que colabora com as autoridades e que a investigação trata da conduta de agentes públicos, não da atuação institucional da pasta. O órgão também afirmou que os acordos sob suspeita foram firmados em gestões anteriores.
O BRB declarou que sua atuação estaria restrita à operacionalização de descontos e que a investigação envolve a BRB Serviços, empresa do conglomerado com CNPJ e atribuições próprias. O PicPay nega irregularidades e sustenta que seus produtos obedecem às normas vigentes. O Iprev-DF informou que materiais foram recolhidos em suas dependências para acesso a relatórios e informações, mas afirmou não ser alvo da operação.
A entrada direta de Celina no caso muda o peso político da apuração. Até aqui, a investigação avançava na esfera do Ministério Público e do Judiciário. Com a ordem para auditoria externa, o Buriti passa a sinalizar que quer produzir sua própria radiografia da folha, especialmente diante da sensibilidade do tema para aposentados, pensionistas e servidores da ativa.
O episódio também reforça o papel de Valdivino Oliveira na reorganização da área econômica do DF. O DFMobilidade já havia mostrado, na reportagem Valdivino Oliveira deixa Goiânia e retorna ao DF para comandar Economia na gestão Celina Leão, que a chegada do secretário foi tratada como peça estratégica para dar previsibilidade à gestão fiscal.
A nova auditoria se soma a um ambiente de maior pressão sobre a governança financeira do Distrito Federal, especialmente após os desdobramentos envolvendo o BRB e o Banco Master. Em outra frente, o DFMobilidade mostrou que o acordo no STF destravou crédito de até R$ 6,6 bilhões para capitalizar o BRB, operação apresentada pelo GDF como necessária para preservar o banco público e reforçar mecanismos de controle.
No caso da folha, porém, o impacto é ainda mais direto para o servidor. Não se trata apenas de governança bancária ou de engenharia fiscal. O centro da apuração é o dinheiro que aparece — ou desaparece — no contracheque de quem depende mensalmente do pagamento público.
A auditoria externa ainda não tem resultado divulgado. Até lá, o cuidado jornalístico exige separar denúncia de conclusão, suspeita de prova e investigação de condenação. Mas a ordem dada por Celina coloca o governo sob cobrança imediata: identificar eventuais falhas, proteger servidores e buscar ressarcimento onde houver comprovação de desconto indevido.
O recado político é claro. A folha do GDF virou território sensível demais para funcionar no piloto automático. Agora, cada rubrica terá que explicar a que veio.




