Famílias brasileiras batem recorde de endividamento e cartão vira símbolo da crise

Foto: Agência Brasil/Marcello Casal Jr
Foto: Agência Brasil/Marcello Casal Jr

O endividamento das famílias brasileiras voltou a bater recorde em maio e expôs, mais uma vez, a pressão sobre o orçamento doméstico no país. Segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, a Peic, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, 81,6% das famílias declararam ter algum tipo de dívida. O índice era de 80,9% em abril e de 78,2% em maio de 2025. É o maior patamar da série histórica iniciada em 2010.

O dado confirma uma tendência de deterioração das finanças familiares. Maio foi o quinto mês seguido de alta no endividamento. Na prática, o brasileiro segue recorrendo ao crédito para fechar as contas do mês, num ambiente em que juros elevados, renda apertada e custo de vida pressionado formam uma equação pouco generosa. A planilha da casa, como se vê, anda fechando mais na base do malabarismo do que da folga.

A inadimplência também avançou. O percentual de famílias com contas em atraso subiu para 29,9%, ante 29,7% em abril e 29,5% no mesmo mês do ano passado. Já a parcela de consumidores que afirma não ter condições de quitar as dívidas permaneceu em 12,3% pelo terceiro mês consecutivo, sinal de que parte das famílias não apenas deve, mas perdeu capacidade real de reorganizar o orçamento.

O problema é mais agudo entre os mais pobres. Nas famílias com renda de até três salários mínimos, o endividamento chegou a 84,6%, enquanto a inadimplência alcançou 38,6%. Entre os lares com renda superior a dez salários mínimos, 71,4% declararam ter dívidas, mas o percentual de contas em atraso ficou em 15,4%. A diferença mostra que o crédito pesa de forma desigual: para a baixa renda, muitas vezes ele deixa de ser instrumento de consumo e vira complemento de sobrevivência.

O cartão de crédito segue no centro da crise. A modalidade aparece em 84,6% dos casos de endividamento, seguida por carnês de loja, crédito pessoal e consignado. O rotativo do cartão cobra juros anuais superiores a 400%, o que transforma atrasos pequenos em dívidas de crescimento acelerado. O DFMobilidade já havia mostrado, em matéria relacionada, que o cartão de crédito virou uma armadilha com juros que esmagam a renda das famílias.

Os dados do Banco Central reforçam o cenário. Em março, o endividamento das famílias estava em 49,8% da renda acumulada em 12 meses. O comprometimento da renda com dívidas ficou em 29,3%. No crédito livre para pessoas físicas, a taxa média de juros chegou a 63% ao ano em abril, com alta de 5 pontos percentuais em 12 meses.

O governo federal tenta responder ao problema com programas de renegociação. O chamado Desenrola 2.0 foi apresentado como uma tentativa de trocar dívidas caras por contratos mais leves, com descontos e parcelas menores. O DFMobilidade também abordou o tema em reportagem sobre o Desenrola 2.0 e a trava contra bets, medida que buscou associar renegociação de dívidas a restrições ao uso de plataformas de apostas.

A aposta do governo em medidas de alívio, porém, não elimina a causa estrutural do problema. Com crédito caro, inflação acumulada nos itens básicos e renda comprometida, a renegociação pode até dar fôlego momentâneo, mas não muda o fato de que milhões de brasileiros continuam vivendo no limite entre o vencimento do boleto e o próximo salário.

Outro ponto sensível é o uso do FGTS como instrumento para conter o endividamento. Em abril, o DFMobilidade mostrou que o governo Lula estudava liberar R$ 7 bilhões do FGTS para tentar aliviar dívidas de trabalhadores. A medida pode ajudar no curto prazo, mas também levanta debate sobre a utilização recorrente de recursos do trabalhador para apagar incêndios de política econômica.

O avanço das apostas online também entrou no radar do debate econômico. O Senado apontou que juros altos, crédito rotativo, custo de vida e bets pressionam o orçamento doméstico e ampliam o risco de superendividamento. O DFMobilidade tratou do tema em reportagem sobre o sigilo imposto pelo governo Lula a processos de autorização das bets, setor que movimenta bilhões e exige fiscalização transparente.

O novo recorde da Peic deixa uma fotografia dura da economia real. O consumo segue sustentado por crédito, mas o crédito ficou caro demais. A renda até circula, mas chega carimbada por parcelas, juros e atrasos. E, quando mais de oito em cada dez famílias estão endividadas, o problema deixa de ser apenas doméstico e passa a ser um sinal amarelo para comércio, serviços e crescimento econômico.

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