A taxa média de juros do rotativo do cartão de crédito voltou a subir em abril e chegou a 432,1% ao ano, segundo dados das Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas pelo Banco Central nesta quinta-feira, 28 de maio de 2026. O avanço foi de 3,7 pontos percentuais em relação a março, quando a taxa estava em 428,4% ao ano.
O número escancara uma contradição incômoda da economia brasileira: mesmo com regras que limitaram os encargos totais do rotativo e do parcelamento da fatura, o custo de entrada nessa modalidade continua em patamar sufocante. Na prática, o consumidor que cai no rotativo entra em uma das linhas de crédito mais caras do país.
A regra em vigor desde janeiro de 2024 limita juros e encargos a 100% do valor original da dívida. Ou seja, uma dívida de R$ 100 não pode virar mais de R$ 200 apenas com juros e custos financeiros. Ainda assim, a taxa anual informada pelo Banco Central segue elevada porque reflete o preço pactuado pelas instituições financeiras no momento da contratação do crédito.
O problema é que o cartão de crédito costuma ser usado justamente por quem já está com o orçamento apertado. Quando a fatura não fecha, o rotativo aparece como saída rápida. Mas a porta de emergência, nesse caso, cobra pedágio de aeroporto internacional.
A alta também ocorre em um ambiente de crédito ainda caro no país. Embora a Selic tenha entrado em trajetória de queda, o alívio não chega com a mesma velocidade ao consumidor. Bancos continuam considerando risco de inadimplência, spread, custos operacionais e cenário fiscal antes de reduzir taxas.
O DFMobilidade já havia mostrado, em março, que o rotativo havia chegado a 435,9% ao ano em fevereiro, pressionando a renda das famílias e ampliando o risco de endividamento. A nova alta de abril reforça que o problema não foi resolvido. Leia também: https://dfmobilidade.com.br/brasil/cartao-de-credito-vira-armadilha-juros-disparam-para-4359-ao-ano-e-esmagam-renda-das-familias/
Outro ponto importante é que a queda da Selic, por si só, não garante redução imediata no custo do crédito. Em abril, o DFMobilidade destacou que, mesmo com o corte da taxa básica para 14,5% ao ano, o bolso do consumidor continuaria apertado, especialmente em linhas como cartão de crédito e cheque especial. Leia também: https://dfmobilidade.com.br/brasil/juro-cai-mas-bolso-segue-apertado-com-selic-a-145/
O cenário pressiona principalmente famílias de menor renda, que dependem mais do crédito para fechar o mês. Com juros desse tamanho, qualquer desequilíbrio vira bola de neve. E bola de neve, no Brasil, infelizmente, costuma rolar ladeira abaixo direto para a inadimplência.
A persistência de taxas tão altas coloca novamente o governo federal diante de uma cobrança inevitável: não basta anunciar crescimento ou melhora macroeconômica se o crédito continua proibitivo para milhões de brasileiros. A economia real não cabe apenas em planilha. Ela aparece na fatura, no mercado, no aluguel e na conta que vence antes do salário cair.
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