Proposta de delação do ex-banqueiro expõe engrenagem de propina com dinheiro vivo, contratos simulados e offshores envolvendo aliados e familiares do ex-líder do governo Lula no Senado.
As velhas práticas que marcaram o noticiário político nacional parecem se recusar a sair de cena quando o assunto é a articulação do governo federal. Documentos de uma proposta de colaboração premiada apresentada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelam um suposto esquema de pagamento mensal de R$ 1 milhão em espécie destinado a operadores e aliados diretos do senador Jaques Wagner (PT-BA) — até recentemente, o homem de confiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na liderança do Senado.
De acordo com o relato obtido com exclusividade, o duto de recursos funcionava por meio de uma engenharia montada entre o Master e a PKL One, empresa responsável pelo Credcesta, cartão de crédito consignado amplamente utilizado por servidores públicos da Bahia. O negócio, privatizado em 2018 quando o próprio Jaques Wagner comandava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico daquele estado, teria contado com a atuação oculta do petista para direcionar o contrato a Augusto Lima, então sócio de Vorcaro.
Ao todo, Vorcaro indicou repasses que chegavam a cifras estratosféricas de R$ 3 milhões mensais. O pacote de benesses ao entorno do senador não se limitava aos maços de notas em espécie: incluía distribuição artificial de lucros, dividendos e contratos fictícios de prestação de serviços. Em um dos episódios mais sensíveis narrados na delação, os pagamentos teriam contemplado uma empresa offshore e a própria filha de Jaques Wagner.
A revelação lança luz sobre o verdadeiro pano de fundo da saída de Wagner da liderança do governo Lula no Senado, ocorrida em junho após ele virar alvo explícito da Operação Compliance Zero. A investigação da Polícia Federal já mirava vantagens indevidas irrigadas pelo Banco Master na órbita do cacique petista.
Apesar da gravidade dos relatos e do volume de detalhes sobre o apetite por recursos em papel-moeda, a proposta de delação de Vorcaro acabou formalmente rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR). O argumento oficial foi a ausência de elementos materiais de corroboração apresentados pelo ex-banqueiro, que admitiu ter recebido as informações do esquema por meio de Augusto Lima, hoje monitorado por tornozeleira eletrônica após breve passagem pela prisão.
As defesas do senador Jaques Wagner e dos demais citados mantêm a linha de que as acusações são infundadas e desprovidas de respaldo probatório. Nos bastidores do Congresso e do Planalto, no entanto, o eco da palavra “mesada” volta a constranger a base governista com um enredo desconfortavelmente familiar.
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