Do palanque ao paredão: quando o presidente vira cabo eleitoral

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Coluna de opinião

Ceilândia, quarta-feira à noite. Palanque armado, militância cativa, som ligado — e o presidente da República, que deveria falar como chefe de Estado, escolheu falar como chefe de campanha. Na tentativa de blindar o candidato do PT ao governo do Distrito Federal, Leandro Grass, Luiz Inácio Lula da Silva decidiu tratar a crise bilionária do BRB não como problema de gestão pública, mas como munição de comício. O resultado foi um discurso que mistura fato, meia-verdade e acusação sem lastro — e que a governadora Celina Leão (PP) não deixou passar em branco.

A acusação que carece de prova

Lula chamou Celina de “cínica e mentirosa” por, segundo ele, tentar empurrar para a União a responsabilidade pelo rombo do BRB. É uma acusação grave, dirigida a uma governadora em exercício e candidata à reeleição — e que o presidente fez sem apresentar um único documento, mensagem ou decisão administrativa que a sustente. Chamar de mentirosa quem apenas pede socorro ao Tesouro Nacional para um banco público — pedido protocolado, público, discutido inclusive no STF desde maio — não é fato, é adjetivo. E adjetivo, no jornalismo e na política, não substitui prova.

Celina respondeu no mesmo tom, mas com o material que tinha em mãos: lembrou que o governo federal socorreu os Correios duas vezes e nega aval para um empréstimo ao GDF; que o BRB emprega seis mil pessoas e sustenta programas sociais; e resumiu o recado do Planalto com uma frase que deveria constar de qualquer manual de convivência federativa: esperava que o presidente “agisse como presidente da República e não como cabo eleitoral” de quem, segundo ela, nada fez pelo banco.

O que é fato — e o que ainda é apuração

Aqui cabe o zelo que falta ao palanque: nem tudo que se diz numa crise dessas é prova, e nem tudo que é grave deixa de ser real. A Polícia Federal identificou cerca de R$ 12 bilhões em títulos que o BRB comprou do Banco Master e que, segundo a apuração, simplesmente não existiam — isso é fato investigado, não retórica. Também é fato que o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central sob suspeita de fraude bilionária e que há inquérito em curso no Supremo para apurar responsabilidades penais.

Já a tentativa de colar o nome de Celina à negociação — a partir de mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro citando uma suposta “presença” dela nas tratativas — é alegação, não sentença. A governadora nega, diz que se manifestou publicamente contra a operação quando ainda era vice-governadora e que seu nome “não consta nem no celular do Vorcaro”. Até que a apuração diga o contrário, o que existe é disputa de narrativa, e tratá-la como culpa consumada é o mesmo pecado que se aponta no adversário.

O silêncio seletivo do palanque

O que chama atenção não é só o que Lula disse, mas o que evitou aprofundar. Sobre o desgaste institucional em torno do próprio Supremo — a ponto de auxiliares do presidente cobrarem publicamente explicações de ministros da Corte — o discurso preferiu o ataque lateral a Flávio Bolsonaro em vez do debate de fundo. Sobre o rombo nos descontos associativos que atinge aposentados do INSS, escândalo que ainda corre em CPMI e afeta diretamente o eleitorado mais fiel ao presidente, nenhuma palavra em Ceilândia. E sobre a própria genealogia do esquema Master — que setores da oposição associam à estrutura de crédito consignado montada em governos petistas na Bahia, tese que o senador Jaques Wagner rejeita publicamente e atribui à omissão do Banco Central na gestão Campos Neto —, o presidente também preferiu não tocar no fio desencapado. É rombo demais para uma narrativa que só aponta para um lado.

Eleição é isso, mas política também tem preço

Não é ilegítimo fazer campanha; é o ofício de qualquer candidato e de qualquer partido no poder. Ilegítimo é usar o cargo de presidente da República para transformar uma crise bancária que afeta seis mil empregos e o cofre de um estado inteiro em munição de palanque, sem provas e sem contraponto. Celina tem um banco para salvar, uma reeleição para disputar e, ao que tudo indica, uma queda de braço federativa pela frente. Lula tem um discurso para ajustar — de preferência, um que resista ao teste dos fatos, e não só ao aplauso da plateia.

Nota: os trechos atribuídos a Lula e a Celina Leão foram extraídos de declarações públicas em ato de campanha e de resposta divulgada pela imprensa (Metrópoles, 16-17/9/2026). Pontos ainda sob apuração — como a suposta participação de Celina Leão nas tratativas entre BRB e Banco Master, e a origem histórica do esquema — são tratados como alegações em disputa, não como fatos estabelecidos.

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