O dinheiro que desaparece silenciosamente nas telas dos celulares já pesa mais sobre a economia brasileira do que uma das maiores crises comerciais recentes do país. Estimativa elaborada pelo economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Made-USP, aponta que as bets podem ter retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025, impacto equivalente a 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Na comparação utilizada pelo estudo, o efeito chega a ser cerca de cinco vezes superior ao impacto projetado para o tarifaço americano.
A origem dessa sangria está no bolso das famílias. Levantamento do Comsefaz, elaborado a partir de estatísticas de pagamentos, calculou uma perda líquida de R$ 62,5 bilhões com apostas em 2025, enquanto aproximadamente R$ 351 bilhões circularam em transferências via Pix relacionadas ao setor. Quando o dinheiro destinado às bets deixa de pagar supermercado, serviços, roupas ou prestações, o efeito não termina no apostador: desaparece também parte do consumo que movimentaria empresas, empregos, salários e arrecadação.
Leia também no DFMOBILIDADE
Governo Lula coloca sob sigilo processos de autorização das bets
Leia a matéria
Governo federal bloqueia mais de 3 milhões de beneficiários em sites de apostas
Leia a matéria
Nova tarifa de 25% dos EUA amplia pressão sobre o Brasil
Leia a matéria
EUA poupam café e carne, mas etanol entra no tarifaço de 25%
Leia a matéria
Tarifaço chega às fábricas e ameaça empregos
Leia a matéria
Com tarifaço em vigor, Lula abre novo processo contra os EUA
Leia a matéria
A comparação fica ainda mais incômoda porque a própria Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda havia estimado que as tarifas americanas reduziriam o PIB brasileiro em cerca de 0,2 ponto percentual entre agosto de 2025 e dezembro de 2026. Enquanto o tarifaço mobilizou discursos, planos emergenciais e reação diplomática, a expansão das apostas ocorre dentro de um mercado federal regulamentado desde janeiro de 2025. Atualmente, a Secretaria de Prêmios e Apostas mantém dezenas de empresas autorizadas a operar nacionalmente.
Os números sobre o efeito das bets, contudo, são estimativas econômicas, e representantes do próprio setor contestam parte da metodologia utilizada para calcular as perdas. Ainda assim, mesmo os dados oficiais das plataformas legalizadas revelam a dimensão do fenômeno: brasileiros depositaram cerca de R$ 220,6 bilhões nas casas autorizadas em 2025, com receita bruta das operadoras estimada em R$ 36,9 bilhões. O tarifaço veio de Washington e ganhou manchetes; a aposta sai diariamente do bolso do brasileiro — e, pelos cálculos apresentados, a conta doméstica pode ser muito mais pesada.




