Levantamento reúne créditos, subsídios, renúncias tributárias, programas sociais e publicidade; cifra bilionária entra no centro do debate sobre o uso da máquina pública em 2026
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega à campanha eleitoral de 2026 cercado por uma cifra que chama atenção até para os padrões de Brasília: R$ 278,3 bilhões. O montante é calculado pelo “Gastômetro”, levantamento do Estadão reproduzido nesta segunda-feira (17) pela Revista Oeste, e reúne medidas adotadas ou ampliadas pelo governo com elevado impacto econômico e social. Há, porém, uma distinção necessária: os R$ 278,3 bilhões não correspondem a uma retirada única de dinheiro do caixa da União. A conta agrega linhas de crédito, subsídios, renúncias de arrecadação, benefícios sociais, iniciativas financiadas por fundos públicos e publicidade institucional. O tamanho do pacote, contudo, coloca a política fiscal no centro da disputa pela reeleição.
Na prateleira estão financiamento habitacional, expansão de linhas de crédito para caminhoneiros, taxistas e motoristas de aplicativos, Pé-de-Meia, Gás do Povo, Luz do Povo e Novo Desenrola Brasil, além das alterações no Imposto de Renda. Neste último caso, a legislação estabelece isenção integral para rendimentos de até R$ 5 mil mensais e desconto progressivo entre R$ 5 mil e R$ 7 mil, e não isenção completa até R$ 7 mil. Somente cinco políticas de crédito analisadas oficialmente pelo Ministério do Planejamento — expansão do Minha Casa, Minha Vida e Reforma Casa Brasil, Move Brasil, Indústria 4.0 e Bens de Capital Verdes — somam R$ 83,5 bilhões. O próprio governo estima potencial de R$ 110,9 bilhões no PIB, 1,9 milhão de postos de trabalho mobilizados e R$ 45,4 bilhões em arrecadação, ressalvando que são projeções de impacto potencial, não resultados já realizados.
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O calendário torna a discussão ainda mais sensível. Desde 4 de julho, vigora o chamado defeso eleitoral, período em que a Lei das Eleições impõe restrições ao uso da estrutura pública para preservar a igualdade entre candidatos. Entre as limitações estão publicidade institucional, determinadas transferências de recursos e o comparecimento de candidatos a inaugurações de obras públicas. Isso não significa que programas sociais ou políticas públicas legais tenham de ser suspensos: a própria legislação admite a continuidade de ações previstas em lei e já executadas anteriormente. Portanto, o volume de R$ 278,3 bilhões, isoladamente, não caracteriza irregularidade eleitoral; eventual abuso depende da forma, da finalidade e das circunstâncias de utilização da máquina pública.
É justamente nessa fronteira entre política pública e conveniência eleitoral que os números ganham peso político. O governo argumenta que crédito subsidiado, habitação e estímulos econômicos produzem emprego, crescimento e arrecadação; a documentação oficial do Ministério do Planejamento sustenta essa tese, embora reconheça que os efeitos calculados dependem da execução integral dos programas e ocorrerão ao longo do tempo. Em ano de eleição, porém, R$ 278,3 bilhões em benefícios, crédito, renúncias e incentivos formam uma vitrine difícil de separar da campanha de quem ocupa o Planalto e busca permanecer nele. A lei pode definir onde termina a administração e começa o abuso; o eleitor, por sua vez, decidirá se enxerga política pública — ou uma generosa abertura do cofre justamente quando as urnas se aproximam.




