Por Lucas Santana
José Roberto Arruda tem uma biografia que dispensa apresentação e recomenda cautela. Foi preso quando governava o Distrito Federal, deixou o Palácio do Buriti pela porta da cassação e acumulou condenações suficientes para transformar qualquer candidatura em exercício permanente de engenharia jurídica.
Ronaldo Fonseca, por sua vez, é pastor, advogado, ex-deputado e ex-ministro de Michel Temer. Conhece igrejas, gabinetes e os corredores de Brasília — lugares onde a fé, o poder e a conveniência costumam marcar reuniões na mesma agenda.
Não surpreende, portanto, que Arruda tenha cogitado Fonseca como vice.O gesto ocorreu durante um encontro com lideranças evangélicas no Núcleo Bandeirante.
O ex-governador precisa de votos evangélicos, respeitabilidade pública e alguma esperança de recuperar seus direitos políticos. Fonseca não decide processos, não orienta ministros e tampouco possui as chaves do Supremo. Mas, em Brasília, há quem confunda boa circulação nos corredores com mapa de saída para labirintos judiciais.
Talvez Arruda espere que o pastor lhe empreste aquilo que sua trajetória política não oferece espontaneamente: aparência de redenção. Ele nunca foi conhecido por frequentar templos, mas descobriu o eleitor evangélico justamente quando precisa de uma multidão disposta a acreditar em milagres — de preferência eleitorais.
O problema é que Ronaldo Fonseca pode acabar reduzido a uma espécie de selo religioso numa candidatura ainda cercada por questões judiciais. Arruda levaria a memória das obras; o pastor, a linguagem do púlpito. Um tentaria convencer o eleitor de que o passado passou. O outro teria a missão ingrata de tornar essa narrativa quase bíblica.
Arruda sempre soube encantar plateias, alguns dizem que “serpentes”. Agora ensaia encantar também os fiéis. A política, afinal, é a arte de procurar salvação sem necessariamente admitir o pecado. Resta saber se o eleitorado evangélico aceitará servir de escada para quem parece menos interessado no céu do que na volta ao Palácio do Buriti.




