Diretor da estatal afirma que não há provas de ação criminosa no episódio que paralisou três linhas em São Paulo. Incêndio ocorreu no terceiro dia de operação da concessionária Trivia Trens e levou o governo paulista a devolver temporariamente a gestão à CPTM.
O diretor-presidente da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), Michael Sotelo Cerqueira, saiu em defesa dos funcionários da estatal e rejeitou qualquer tentativa de responsabilizá-los, sem provas, pelo incêndio que atingiu um trem da Linha 12-Safira. Embora ainda não seja possível determinar oficialmente a origem das chamas, o dirigente afirmou que a empresa está colaborando com a investigação e que eventual suspeita de crime deverá ser tratada pela polícia — não pelo tribunal improvisado das redes sociais.
Como começou o incêndio
A ocorrência foi registrada nas primeiras horas da quinta-feira, 23 de julho, em uma composição da Linha 12-Safira. Vídeos gravados pelos passageiros mostram faíscas e, logo depois, o avanço das chamas pelo interior de um dos carros. O fogo provocou a interrupção do fornecimento de energia no trecho entre as estações Brás e Engenheiro Sebastião Gualberto, região estratégica onde as operações ferroviárias são interligadas.
Com o sistema elétrico comprometido, não foi apenas a Linha 12-Safira que parou. A circulação também foi afetada nas linhas 11-Coral, 13-Jade e no Serviço Expresso Aeroporto. Parte dos passageiros precisou abandonar os trens e caminhar pelos trilhos até as estações mais próximas. Não houve registro de feridos, mas houve pânico, longos atrasos e trabalhadores que levaram mais de quatro horas para chegar aos seus destinos.
Outro ponto que deverá ser analisado é o funcionamento dos mecanismos de emergência. Passageiros relataram que o botão de abertura não respondeu depois do corte de energia, obrigando a utilização da alavanca manual para deixar a composição. O detalhe é relevante porque a investigação não terá de explicar apenas a origem do fogo, mas também se os protocolos de evacuação, comunicação e atendimento foram corretamente executados.
De onde surgiu a tese de sabotagem
A hipótese ganhou repercussão depois que o ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo e pré-candidato ao Senado Guilherme Derrite levantou publicamente a possibilidade de o episódio ter sido provocado para prejudicar o processo de concessão das linhas. Até o momento, entretanto, nenhuma perícia, imagem ou documento técnico apresentado pelas autoridades comprovou interferência humana intencional.
Em termos técnicos, sabotagem pressupõe uma ação deliberada destinada a danificar equipamentos, interromper o serviço ou comprometer a nova operadora. Para confirmar essa linha de investigação, seria necessário identificar sinais de manipulação, acesso irregular à composição, alterações em componentes, registros incompatíveis com uma pane comum ou qualquer evidência de atuação criminosa. Sem esses elementos, sabotagem permanece apenas como hipótese — e hipótese política não substitui laudo pericial.
Michael Sotelo afirmou que os trabalhadores da CPTM participaram profissionalmente das transições para operadores privados e permaneceram disponíveis para reassumir o serviço quando acionados. Segundo o dirigente, qualquer suspeita concreta contra funcionários deve ser formalmente investigada pelas autoridades policiais. A declaração não encerra a apuração sobre o incêndio, mas impede que o corpo técnico seja antecipadamente colocado no banco dos réus.
Incêndio aconteceu no terceiro dia da nova gestão
O episódio tornou-se ainda mais grave porque ocorreu no terceiro dia de operação das linhas pela Trivia Trens. A concessionária havia assumido as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade em 21 de julho. Nos dois primeiros dias, já haviam sido registradas falhas, redução de velocidade, superlotação e interrupções em estações como Brás e Barra Funda.
Diante da sequência de problemas, o Governo de São Paulo determinou que a CPTM reassumisse temporariamente a operação por até 90 dias. A mobilização exigiu a convocação urgente de funcionários, reconstrução das escalas de trabalho e reativação de funções que estavam sendo transferidas para a concessionária. As três linhas atendem, juntas, quase 20 milhões de passageiros por mês, o que dimensiona o tamanho do risco operacional.
Uma comissão formada pela Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), CPTM, Trivia Trens e pela fabricante da composição deverá examinar tanto as causas do incêndio quanto a resposta dada pela concessionária. Serão decisivos os registros de manutenção, dados operacionais do trem, imagens, sistemas elétricos e os procedimentos adotados durante a evacuação. Até a conclusão desse trabalho, cravar sabotagem seria precipitado; descartá-la definitivamente também seria. Em ferrovia, como na política, o laudo precisa chegar antes do palanque.
O episódio se soma a outros alertas sobre segurança e gestão ferroviária já acompanhados pelo DFMobilidade, como o furto de cabos que interrompeu a Linha 7-Rubi e o acordo que obrigou a ViaMobilidade a pagar R$ 150 milhões por falhas acumuladas nas linhas paulistas. O debate sobre concessões continuará, mas a prioridade imediata é mais simples: descobrir por que o trem pegou fogo e garantir que nenhum passageiro volte a precisar fugir pelos trilhos.




