Celina põe novos trens nos trilhos, mas ofensiva chinesa exige blindagem em licitação de R$ 1 bilhão
Compra de 15 composições pretende reduzir o tempo de espera e ampliar a capacidade do Metrô-DF; desafio será impedir que o menor preço esconda dependência tecnológica e concorrência financiada por Pequim
Por Lucas Santana
A governadora Celina Leão acertou ao tratar a renovação do Metrô-DF como prioridade. A licitação autorizada por sua gestão prevê a fabricação, os testes e a entrega de 15 novos trens, em investimento estimado em R$ 1 bilhão. Integrada às expansões de Samambaia e Ceilândia, a iniciativa pretende reduzir os intervalos nas plataformas e preparar o sistema para elevar o atendimento dos atuais 160 mil a 180 mil passageiros por dia para até 450 mil usuários. O interesse público está claro; o ponto de atenção está no modelo de disputa aberta pelo menor preço, que pode colocar empresas tradicionais diante do poder financeiro praticamente inesgotável de fabricantes vinculadas ao Estado chinês.
A preocupação não nasceu de mera implicância comercial. A CRRC, maior fabricante mundial de material ferroviário, é controlada por um grupo estatal chinês. Em 2024, a Comissão Europeia abriu uma investigação aprofundada depois de identificar indícios de que subsídios estrangeiros poderiam permitir à companhia apresentar uma oferta excessivamente vantajosa em uma concorrência ferroviária na Bulgária. A empresa retirou-se da licitação e o processo foi encerrado sem decisão final — portanto, o episódio não comprova irregularidade no Distrito Federal, mas mostra que a desconfiança sobre uma competição assimétrica está longe de ser fantasia da indústria brasileira.
Trens permanecem em operação por três décadas ou mais. Por isso, limitar a escolha ao desconto oferecido no dia da licitação seria uma economia com prazo de validade curto. O contrato precisa assegurar estoque de peças, assistência técnica no Brasil, atualização de softwares, eficiência energética, confiabilidade, manutenção durante a vida útil, produção local e penalidades severas para atrasos. O DFMobilidade já mostrou que a modernização e a expansão inauguram uma nova fase do Metrô-DF, mas também alertou que a presença da CRRC pode ampliar a dependência externa do setor ferroviário. Celina merece reconhecimento por tirar o projeto da gaveta; agora, sua intenção positiva precisa ser protegida por salvaguardas técnicas e industriais.
Brasília precisa de novos trens, mas não de uma promoção relâmpago patrocinada por Pequim. Empresas chinesas devem disputar o contrato, desde que submetidas às mesmas condições econômicas, tributárias e produtivas exigidas de quem investe, emprega e mantém fornecedores no Brasil. O vencedor deve entregar o melhor resultado durante toda a vida útil das composições — e não apenas o lance mais baixo diante da comissão. Caso contrário, o passageiro poderá ganhar um trem barato hoje e o Distrito Federal comprar uma dependência cara para os próximos 30 anos.




