Transnordestina avança, mas segue incompleta

Foto: Presidência da República
Foto: Presidência da República

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva transformou a agenda em Quixeramobim, no Ceará, em vitrine para anunciar mais R$ 600 milhões à Ferrovia Transnordestina, entregar 101 quilômetros de trilhos entre Acopiara e Quixeramobim, formalizar o Ramal Nelog até o Complexo do Pecém e apresentar 100 vagões graneleiros. No papel, é avanço. Na prática, é também a admissão de que uma das obras mais simbólicas do país continua dependendo de novos anúncios para chegar ao destino — e trem que precisa de palanque a cada estação ainda não virou solução logística plena.

 

A própria régua oficial mostra o tamanho do problema: a Transnordestina terá 1.206 quilômetros, mas chegou agora a 777 quilômetros concluídos. Ou seja, ainda há um longo trecho entre o discurso e a operação integral. O investimento estimado é de R$ 15 bilhões, com cerca de R$ 11 bilhões já recebidos até maio de 2026 e mais R$ 4 bilhões contratados. O governo fala em competitividade, escoamento de grãos, fertilizantes, combustíveis, cimento e minério; mas o contribuinte, esse passageiro eterno da conta pública, ainda espera ver o custo bilionário virar entrega completa.

 

O ponto crítico não está em negar a importância da ferrovia. Pelo contrário: o Nordeste precisa de infraestrutura moderna, barata e integrada. O problema é vender cada desembolso como façanha quando a obra segue marcada por repactuações, cronogramas refeitos e cobranças de governança. Em maio, o Tribunal de Contas da União voltou a exigir salvaguardas para que investimentos sejam executados, recursos sejam usados corretamente e obrigações antigas da concessionária não sejam empurradas para dentro de novos arranjos. É o tipo de alerta que tira o brilho da cerimônia e recoloca a pergunta essencial: quem fiscaliza o trilho depois que o microfone é desligado?

 

A Transnordestina tem potencial para reorganizar a logística nordestina e reduzir a dependência rodoviária, mas o Brasil já conhece bem o roteiro de grandes corredores anunciados com entusiasmo e entregues com atraso. Como o DFMobilidade mostrou nas reportagens Brasil e China firmam estudos para ferrovia bioceânica, mas desafios ambientais, soberania e financeiros permanecem e Brasil e China firmam acordo para implantação de corredor bioceânico ligando Ilhéus ao megaporto de Chancay, ferrovia no Brasil virou sinônimo de promessa continental. A diferença entre projeto de Estado e propaganda de governo será medida não pela foto no palanque, mas pelo dia em que a carga circular sem precisar de mais uma solenidade para explicar por que ainda falta tanto.

 

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