A governadora Celina Leão reuniu deputados distritais do MDB nesta terça-feira, 23 de junho, em um almoço político no Palácio do Buriti para tentar reorganizar a relação com a legenda e reduzir o desgaste aberto nas últimas semanas.
A ausência, não foram convidados, do ex-governador Ibaneis Rocha e do deputado federal Rafael Prudente, dois dos principais nomes do grupo que resiste ao avanço de Celina sobre a base emedebista, deu ao encontro um peso ainda maior nos bastidores da sucessão de 2026.
O almoço foi vendido como gesto de reconciliação. Mas, na prática, teve também ares de reposicionamento de força. Celina chamou para perto quem tem mandato, voto e presença diária na Câmara Legislativa. Ao conversar diretamente com distritais do MDB, a governadora abriu um canal sem depender da tutela política de Ibaneis ou da articulação de Rafael Prudente.
A política, às vezes, fala mais alto pelo lugar vazio à mesa. E, neste caso, as cadeiras de Ibaneis e Rafael disseram bastante.
O presidente da Câmara Legislativa e dirigente do MDB-DF, Wellington Luiz, saiu do encontro em tom conciliador. Ele afirmou que Celina pediu apoio aos deputados e reafirmou compromisso com a candidatura de Ibaneis ao Senado. A fala foi importante para tentar conter a leitura de rompimento, mas não elimina o novo desenho que começa a se formar dentro da base.
O dado central é que Celina tenta pacificar o MDB por baixo, conversando com a bancada distrital, enquanto a disputa pelo comando da legenda continua tensionada por cima. Se a estratégia funcionar, Ibaneis e Rafael podem enfrentar uma desvantagem objetiva: manterão peso político, história e influência partidária, mas com menor controle prático sobre os deputados que precisam conviver com o governo e com a máquina administrativa todos os dias.
Essa é a diferença entre liderar no discurso e comandar na realidade.
Nos bastidores, a leitura é simples. Se Celina conseguir recompor a relação com Wellington Luiz, Hermeto, Iolando, Jaqueline Silva, Daniel Donizet e demais atores da base, o núcleo ligado a Ibaneis e Rafael pode perder capacidade de pressão. Um MDB unido em torno dos distritais reduz o espaço para aventuras de confronto e enfraquece a tese de que o partido deve impor condições duras à governadora.
O DFMobilidade já havia mostrado, na reportagem Celina reúne deputados do MDB para almoço decisivo sobre 2026, que o convite feito à bancada emedebista tinha objetivo claro: medir forças, reorganizar pontes e testar quem, dentro do partido, está disposto a caminhar com o projeto de reeleição da governadora.
O gesto desta terça confirma essa movimentação. Celina não esperou a crise se resolver dentro do MDB. Ela atravessou o Eixão Monumental, chamou os distritais e tratou diretamente com quem pode garantir governabilidade na Câmara Legislativa.
A ausência de Rafael Prudente também chama atenção porque foi justamente ele quem levou à direção nacional do MDB questionamentos sobre a condução política do diretório regional, presidido por Wellington Luiz. O movimento abriu caminho para intervenção da cúpula nacional e expôs o racha interno da legenda no Distrito Federal. Agora, ao reunir a bancada sem Rafael na mesa, Celina sinaliza que a articulação local pode andar independentemente do comando federalizado da crise.
O DFMobilidade já havia analisado esse embate em Baleia trava MDB-DF e leva crise sobre 2026 para a direção nacional, mostrando que a disputa deixou de ser apenas uma divergência regional e passou a envolver o controle da chapa majoritária de 2026.
Ibaneis, por sua vez, segue como peça central no tabuleiro. A candidatura ao Senado continua sendo tratada como prioridade dentro do MDB, e Wellington fez questão de afirmar que Celina mantém apoio ao ex-governador. Mas uma coisa é apoiar Ibaneis para o Senado. Outra, bem diferente, é aceitar que ele dite sozinho os rumos da sucessão ao Buriti.
É justamente aí que mora a nova tensão.
Celina precisa do MDB, mas quer mostrar que não depende de um único comando dentro do partido. Ao prestigiar os distritais, ela constrói uma ponte alternativa e reduz o poder de veto do grupo mais próximo de Ibaneis e Rafael. Caso consiga manter essa linha, a governadora transforma a crise em oportunidade: divide a resistência, preserva a base e se apresenta como eixo natural da continuidade administrativa.
Para os distritais, a conta também é pragmática. A maioria tem projeto de reeleição, depende de capilaridade nas regiões administrativas e precisa manter diálogo com o governo. Romper com Celina agora seria apostar em uma guerra de alto risco, sem garantia de vitória e com custo imediato na relação com o Executivo.
Por isso, o almoço não pode ser lido apenas como gesto cordial. Foi uma operação política.
Celina ofereceu pacificação, mas também mostrou capacidade de isolar quem insistir no confronto. Ibaneis e Rafael ainda têm peso no MDB, mas a governadora passou a disputar diretamente o coração operacional da legenda: a bancada distrital.
No fim, o encontro deixou uma mensagem clara. Celina quer o MDB na base, Ibaneis na chapa ao Senado e os distritais ao seu lado. Mas não parece disposta a entregar o comando da própria sucessão.
A reconciliação começou com almoço. A disputa, porém, continua no cardápio.




