O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, pediu à Polícia Federal o envio do material relativo à quebra de sigilo de Roberta Luchsinger, empresária apontada nas investigações como pessoa próxima de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. O movimento recoloca no centro da crise do INSS uma pergunta incômoda para o Palácio do Planalto: até onde as apurações podem chegar quando os nomes orbitam o núcleo familiar do presidente Lula?
A solicitação ocorre no contexto da Operação Sem Desconto, investigação conduzida pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União sobre descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões. Segundo a CGU, relatório da operação apontou que mais de 97% dos beneficiários entrevistados não reconheceram os descontos, e o prejuízo potencial pode chegar a R$ 6,3 bilhões.
Roberta Luchsinger já havia entrado no radar da CPMI do INSS. Em março, o ministro Flávio Dino suspendeu, de forma parcial, a quebra de sigilo aprovada pela comissão, por entender que a medida não apresentou fundamentação individualizada suficiente. A decisão atingiu requerimentos votados em bloco, prática que, segundo o Supremo, não atende ao padrão exigido quando se trata de acessar dados bancários e fiscais.
Agora, o pedido atribuído a Mendonça muda o eixo da discussão. Diferentemente da disputa política travada na CPMI, o envio de material pela PF ao relator no Supremo pode reforçar a apuração judicial sobre as conexões financeiras investigadas. Ou seja: o que foi barrado na arena parlamentar pode continuar vivo nos autos, longe do barulho do plenário e mais perto da lupa dos investigadores.
O Senado já havia registrado que a CPMI pautou uma lista com 87 requerimentos envolvendo quebras de sigilo, incluindo o de Fábio Luís Lula da Silva, além de convocações e novos depoimentos. A ofensiva parlamentar sobre Lulinha provocou reação da base governista, que passou a contestar a forma de votação e a legitimidade de parte das medidas aprovadas.
O DFMobilidade mostrou recentemente, em Depoimento sobre Lulinha amplia desgaste de Lula na crise do INSS, que o caso abriu uma nova frente de desgaste político para o governo federal. Também registrou, em Investigação da PF cita mesadas e passagens de Lulinha e “Careca do INSS”, que o nome do filho do presidente apareceu em elementos analisados no inquérito, embora a defesa negue irregularidades e não haja condenação.
A crise também se conecta ao ambiente político da CPMI. Em Messias, Lulinha, Leila Pereira e executivos de bancos são blindados na CPMI do INSS e escapam de depoimento, o DFMobilidade mostrou como a base governista atuou para conter convocações consideradas sensíveis. E, em Campanha do PT culpa governo Bolsonaro por fraudes no INSS, registrou a tentativa do partido de deslocar a responsabilidade política sobre o escândalo.
O ponto central, agora, é saber se o material solicitado por Mendonça terá força para esclarecer a rota do dinheiro, os vínculos entre investigados e a eventual participação de terceiros. A PF apura suspeitas de organização criminosa, estelionato previdenciário, ocultação patrimonial e outros crimes contra a administração pública em fases recentes da Operação Sem Desconto.
Enquanto isso, o governo Lula tenta administrar o desgaste de uma crise que nasceu nos contracheques de aposentados e pensionistas, avançou para sindicatos, entidades e operadores financeiros, e agora encosta novamente no entorno político do presidente. Em Brasília, quando a investigação pede sigilo, a política costuma pedir silêncio. Mas, neste caso, o silêncio está ficando caro demais.
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