No culto deste domingo, 19, na Igreja Comunidade das Nações, o púlpito falou de identidade, propósito, travessia e libertação. Mas, como quase sempre acontece em Brasília, o templo também acabou oferecendo uma imagem política pronta: Celina Leão e Michelle Bolsonaro sentadas lado a lado, em silêncio, mas dizendo muito.
A mensagem pregada, conforme o texto divulgado pela igreja, partiu de Êxodo 12:37 para sustentar a ideia de uma jornada de transformação, em que o povo deixa a servidão para trás e entra numa travessia pedagógica, espiritual e moral. O sermão falava em abandonar o “Egito” dos medos, vícios e amarras do passado para viver um novo tempo, de crescimento e rompimento. Na superfície, uma exortação de fé. Na moldura política de Brasília, um simbolismo inevitável.
Celina Leão e Michelle Bolsonaro não são apenas duas mulheres públicas num banco de igreja. São, hoje, dois polos de referência para um campo conservador que continua vivo, organizado e socialmente enraizado no Distrito Federal e no Brasil. A primeira, com responsabilidade administrativa e peso institucional no DF. A segunda, com densidade eleitoral, apelo popular e forte conexão com o eleitorado evangélico e com a base ideológica do bolsonarismo. Quando aparecem juntas num ambiente de fé, a imagem deixa de ser apenas religiosa. Vira linguagem política.
E a política, no Brasil de hoje, é feita também de imagens carregadas de recado. Num país exausto pela polarização, qualquer gesto público é decodificado como sinal de alinhamento, resistência ou projeto. Ainda mais quando o governo Lula se vê cercado por ruídos permanentes, insegurança econômica, conflitos entre Poderes e uma desordem institucional que corrói a previsibilidade da República. Brasília virou, nos últimos tempos, uma praça de sobressaltos: muito discurso, pouca harmonia e uma sensação quase crônica de que as instituições vivem em atrito.
É justamente nesse ambiente que encontros como esse ganham densidade. O sermão sobre deixar o passado para trás, atravessar o deserto e avançar com fé pareceu cair como luva sobre um campo político que se apresenta como alternativa ao lulismo e ao esgotamento do modelo petista de poder. Não por acaso, Michelle Bolsonaro costuma ocupar esse espaço simbólico com naturalidade, associando fé, família e conservadorismo. Celina, por sua vez, reforça a conexão com uma base social decisiva no DF, sem romper a liturgia de quem governa e precisa falar com públicos mais amplos.
Ali, lado a lado, as duas pareciam resumir uma convergência possível entre o institucional e o ideológico, entre a administração local e a oposição nacional, entre a política de governo e a política de identidade. O culto falava sobre propósito. A imagem, sobre posicionamento.
Num Brasil em que a desordem institucional do governo federal abriu espaço para novos arranjos, o que se viu naquele domingo foi mais que coincidência de assento. Foi fotografia com enredo. E, em Brasília, fotografia assim nunca é só fotografia. É quase sempre ensaio de futuro.




