Na política, há fotografias que dizem mais que discursos inteiros. Michelle Bolsonaro descobriu isso ao dividir o palanque, em Vicente Pires, com José Roberto Arruda.
Segundo o Jornal de Brasília, ela não apenas esteve ao lado do ex-governador: declarou “carinho e admiração” por sua trajetória, afirmou que ele não deveria ter deixado o PL e chegou a dizer que poderia estar na chapa do partido como candidato a deputado federal. Fez a ressalva de que Arruda não é seu candidato ao Governo do Distrito Federal, mas, convenhamos, ressalvas costumam perder a disputa para a fotografia.
O ruído é ainda maior porque, dois dias antes, Michelle havia subido ao palanque de Celina Leão e pedido explicitamente votos para a governadora, para Bia Kicis e para Flávio Bolsonaro.
É aí que mora o problema político. Michelle pode apoiar Celina e manter relações cordiais com adversários — política não exige guerra permanente. Outra coisa é produzir uma imagem pública de intimidade eleitoral com quem disputa exatamente o espaço político de sua aliada. Campanha é mensagem, gesto e símbolo.
E fotografia política, como aquele convidado expansivo que chega à festa e rapidamente ocupa o centro da sala, raramente pergunta ao anfitrião qual era o roteiro da noite.
Também é preciso fazer uma correção importante no debate: a situação eleitoral de Arruda para 2026 não deve ser resumida simplesmente pela palavra “inelegível”.
Ele teve candidatura barrada pela Justiça Eleitoral em 2022, mas a Lei Complementar nº 219, sancionada em 2025, modificou critérios e prazos relacionados às inelegibilidades, inclusive estabelecendo novas regras de contagem.
A aplicação dessas mudanças aos casos concretos passou a integrar a disputa jurídica em torno das eleições de 2026. Isso, porém, não elimina o componente político da fotografia: Arruda está hoje no PSD e ocupa campo adversário ao grupo apoiado publicamente por Michelle no DF.
Para Michelle, portanto, o risco está menos numa conversa cordial e mais na ambiguidade que o palanque produz.
Seu capital político entre eleitores de direita é justamente construído sobre identidade, fidelidade e clareza de posicionamento.
Ao mesmo tempo em que pede votos para um projeto no Distrito Federal, aparecer trocando elogios públicos com um adversário desse mesmo projeto embaralha a mensagem.
Pode ter sido apenas cortesia política em um evento organizado por Alberto Fraga. Mas eleição não é reunião de condomínio: ninguém controla completamente o significado da fotografia depois que ela está feita. E, nesse episódio, quem precisava explicar a imagem depois do palanque era Michelle — não Arruda.
Por: Lucas Santana – Jornalista




