O ex-governador ainda preserva um eleitorado fiel, mas a dificuldade de conquistar novos votos revela um problema estrutural: em eleição majoritária, rejeição elevada costuma cobrar a conta no segundo turno
Pesquisa eleitoral não é profecia. É fotografia. Mas algumas fotografias revelam mais do que outras. A Real Time Big Data divulgada nesta quarta-feira (19) mostra Celina Leão com 34%, José Roberto Arruda com 22% e Leandro Grass com 18%. Até aí, alguém poderia enxergar apenas uma disputa ainda aberta. O dado verdadeiramente incômodo para Arruda, porém, aparece em outra página da pesquisa: 51% dos entrevistados dizem que não votariam nele de jeito nenhum. Celina tem 38% de rejeição e Grass, 36%.
Na técnica eleitoral, intenção de voto mede o piso de uma candidatura; rejeição ajuda a dimensionar o seu teto. E é exatamente aí que mora o problema de Arruda. Seus 22% demonstram que ele conserva um contingente expressivo de eleitores, provavelmente mais resistente às turbulências de sua biografia política. Mas eleição para governador não se vence apenas preservando os convertidos. É preciso ampliar, conquistar o eleitor moderado, absorver votos de candidatos eliminados e reduzir o chamado voto negativo. Quando metade do eleitorado declara antecipadamente que não votaria em determinado candidato, essa elasticidade eleitoral fica drasticamente reduzida.
A simulação de segundo turno praticamente desenha esse fenômeno no papel. Contra Celina, Arruda aparece com 30%, enquanto a governadora chega a 42%. Há ainda 15% de brancos e nulos e 13% de indecisos, mas a diferença de 12 pontos ajuda a demonstrar que o ex-governador encontra dificuldade justamente onde uma candidatura competitiva deveria crescer: fora do seu núcleo original. O eleitorado de Arruda parece ter consistência; o problema é sua capacidade de expansão. Uma candidatura pode sobreviver com rejeição alta no primeiro turno. No segundo, rejeição vira muro.
E esse muro não nasceu nesta eleição. Arruda carrega uma das biografias mais acidentadas da política brasiliense. Renunciou ao mandato de senador em 2001, no episódio da violação do painel eletrônico do Senado. Anos depois reconstruiu sua carreira, venceu a eleição para governador, voltou ao centro do poder e, em 2010, tornou-se o primeiro governador do Distrito Federal preso no exercício do mandato, no contexto das investigações da Operação Caixa de Pandora. O Supremo Tribunal Federal manteve naquela ocasião sua prisão preventiva, determinada no âmbito da investigação sobre suposta tentativa de suborno de testemunha.
Depois vieram novas tentativas de retorno, disputas judiciais e candidaturas cercadas por controvérsias sobre elegibilidade. Em 2014, o Tribunal Superior Eleitoral indeferiu seu registro para disputar novamente o Governo do Distrito Federal. Arruda, portanto, desenvolveu uma extraordinária capacidade de renascer politicamente. Poucos personagens da política brasiliense desapareceram e reapareceram tantas vezes. Mas existe uma diferença fundamental entre voltar para a eleição e voltar para o coração da maioria do eleitorado.
É por isso que considero os 51% de rejeição mais relevantes, neste momento, do que os próprios 22% de intenção de voto. Arruda é extremamente conhecido. Não estamos falando de um candidato que precisa simplesmente apresentar seu currículo à população. Brasília conhece Arruda — suas obras, seu estilo administrativo, suas vitórias, suas derrotas e, sobretudo, suas controvérsias. Para um candidato desconhecido, conhecimento é oportunidade. Para um candidato muito conhecido e muito rejeitado, conhecimento pode virar limite.
Há ainda um componente estratégico. Quanto mais a disputa caminhar para a polarização, maior será a tendência de eleitores migrarem não apenas para quem preferem, mas para quem consideram capaz de impedir a vitória de quem rejeitam. É o mecanismo clássico do voto útil associado ao voto negativo. Nesse ambiente, Arruda corre o risco de unir contra si segmentos que jamais estariam juntos no primeiro turno. E essa talvez seja a maior fragilidade de sua candidatura.
Arruda já provou várias vezes que é capaz de surpreender a política de Brasília. Seria imprudente subestimá-lo. Mas pesquisa se analisa com números, não com nostalgia. E o número mais perigoso para ele hoje não é 22%. É 51%. Porque intenção de voto coloca um candidato na disputa; rejeição pode determinar até onde ele consegue chegar.
Por Lucas Santana – Jornalista




