Eleições 2026: Mobilidade é política de Estado e começa pelos trilhos

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Por Ana Patrizia Lira, diretora-presidente da ANPTrilhos

As cidades crescem, os carros se acumulam nas ruas, o tempo escorre pelos retrovisores. E o Brasil segue empurrando a mobilidade urbana para amanhã. Às vésperas das eleições de 2026, ainda tratamos os trilhos como uma ambição distante, quando eles deveriam ser o ponto de partida para um futuro melhor.

É tempo de fazer a pergunta necessária. Como um país que pretende ser competitivo, inclusivo e sustentável continua adiando decisões estratégicas sobre sua mobilidade? O futuro já não cabe nas velhas soluções. Ele exige visão de longo prazo, políticas de Estado e coragem para mudar prioridades. E isso, inevitavelmente, começa pelos trilhos.

A discussão já está posta. O Congresso avança no Novo Marco Regulatório do Transporte Público, que precisa ser encarado como prioridade nacional para modernizar regras, dar segurança jurídica, atrair investimentos e criar condições reais para expansão da malha de metrôs, trens e VLTs. Mas marco regulatório sozinho não entrega transformação. Mas marco regulatório, sozinho, não entrega transformação. Ele precisa vir acompanhado de incentivos concretos para novos investimentos e do reforço aos projetos já existentes, para que um plano não permaneça no papel e se converta em obras, serviços e expansão real da oferta. Isso só é possível quando há uma Política de Financiamento do Transporte Coletivo capaz de garantir previsibilidade, estabilidade e continuidade ao longo do tempo. É esse tipo de política que permite planejar a longo prazo, contratar, investir, modernizar sistemas e ampliar redes, como fazem países que, de fato, conseguiram democratizar sua mobilidade e torná-la sustentável.

Na França, por exemplo, a criação das Autoridades Metropolitanas de Transporte (AOM) reorganizou competências, integrou regiões inteiras e garantiu governança unificada para decisões estratégicas. Segundo dados do Ministère de la Transition Écologique e da Île-de-France Mobilités, o modelo permitiu ampliar a oferta de transporte coletivo em mais de 30% na região metropolitana de Paris nos últimos 15 anos, ao mesmo tempo em que fortaleceu a integração tarifária e operacional entre metrôs, trens, bondes e ônibus. Esse avanço foi viabilizado por mecanismos estáveis de financiamento, como o versement mobilité, uma contribuição paga por empresas com mais de 11 funcionários. Hoje, essa fonte responde por cerca de 45% do financiamento do transporte público na Île-de-France, garantindo previsibilidade para expansão de linhas, renovação de material rodante e investimentos contínuos em qualidade e sustentabilidade.

Outros países também mostram caminhos inspiradores. Luxemburgo tornou-se, em 2020, o primeiro país do mundo a oferecer transporte público totalmente gratuito em todo o território nacional. Mas a gratuidade não veio sozinha,  ela foi acompanhada de priorização política e investimentos reais na qualidade do serviço. Segundo o Ministério da Mobilidade e Obras Públicas de Luxemburgo, a medida foi sustentada por um orçamento permanente dedicado à mobilidade e acompanhada da ampliação dos investimentos em infraestrutura ferroviária, modernização dos sistemas e aumento da oferta. O resultado foi um crescimento de cerca de 23% na demanda por transporte coletivo nos dois primeiros anos, reforçando que tarifa zero só funciona quando vem associada a qualidade, capacidade e planejamento de longo prazo. O sistema é financiado por receitas fiscais gerais, sustentado por um orçamento permanente dedicado à mobilidade, evidência de que, quando o transporte é prioridade, o financiamento deixa de ser circunstancial e passa a ser estrutural.

Já Portugal adotou uma estratégia complementar. Por meio do Fundo Ambiental, o país tem direcionado recursos para a modernização e descarbonização dos transportes públicos. Segundo dados do Ministério do Ambiente e da Ação Climática, Portugal destinou mais de € 1 bilhão nos últimos anos para a renovação de frotas, eletrificação, melhoria da eficiência energética e expansão de sistemas ferroviários urbanos. Em valores atuais, isso equivale a cerca de R$ 5,5 bilhões. Considerando a escala do país ,  com pouco mais de 10 milhões de habitantes e um PIB aproximadamente oito vezes menor que o brasileiro, esse esforço representaria, em termos proporcionais, investimentos da ordem de dezenas de bilhões de reais no contexto do Brasil. O dado mostra que a transição para uma mobilidade mais limpa não ocorre por discursos, mas por decisões orçamentárias consistentes e contínuas.  Como resultado, o setor de transportes tem registrado reduções progressivas nas emissões de gases de efeito estufa, alinhando mobilidade urbana à política climática nacional.

O ponto em comum entre esses modelos é que financiamento estável cria planejamento; planejamento cria expansão; e expansão cria cidadania.

O Brasil está diante dessa oportunidade. A recém-criada Política Nacional do Transporte Ferroviário de Passageiros aponta caminhos para conectar regiões, estimular polos produtivos e reduzir deslocamentos de longa distância baseados em modos de maior emissão. No âmbito do planejamento de longo prazo, o Plano Estratégico de Longo Prazo do Transporte (PELT) destaca os trilhos como infraestrutura essencial para a integração nacional e o desenvolvimento sustentável. Nos estados, iniciativas como o SP nos Trilhos, em São Paulo, demonstram que, quando há planejamento, coordenação e fontes de financiamento mais claras, é possível tirar projetos do papel, ampliar redes e modernizar serviços.  Já o Plano Estratégico da Mobilidade Urbana sobre Trilhos, construído de forma colaborativa entre setor público, privado e especialistas, traz diretrizes objetivas para ampliar capacidade, qualificar serviços e inserir os trilhos no centro de uma agenda moderna de mobilidade sustentável.

Mas tudo isso depende de escolhas políticas.
Depende de líderes que compreendam que trilhos não são apenas infraestrutura. São vetores de desenvolvimento, inclusão, competitividade e qualidade de vida.

Portanto, deixo aqui minha provocação: quem quer governar o Brasil precisa parar de prometer soluções paliativas e assumir compromissos estruturantes. O eleitorado brasileiro, que depende de transporte público todos os dias, merece candidatos que, não apenas falem a sério sobre mobilidade, mas atuem. Que tratem trilhos não como promessa futurista, mas como política pública essencial, estratégica e urgente.

O Brasil que queremos só chegará ao destino certo se escolhermos, finalmente, o caminho dos trilhos.

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