Com o endividamento público beirando 83% do PIB, presidente convoca cúpula econômica — e até Guido Mantega — para tentar apagar o incêndio que o próprio governo alimentou nos últimos anos.
Durante boa parte de seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tratou a responsabilidade fiscal como um capricho da Faria Lima e classificou alertas sobre o avanço das despesas públicas como insensibilidade social. Agora, diante de uma dívida bruta que já atinge 82,9% do PIB e da desconfiança persistente dos investidores, o Planalto mudou o tom: da soberba retórica passou ao pedido de socorro.
Conforme revelou a coluna de Matheus Leitão, no portal Metrópoles, Lula convocou para o Palácio da Alvorada um grupo de conselheiros de confiança — formado por Fernando Haddad, Dario Durigan, Gabriel Galípolo e Geraldo Alckmin — com a missão de encontrar uma saída para o endividamento público no quarto mandato. O gesto, vendido por aliados como prudência e disposição para o diálogo, escancara na prática a paralisia decisória de um governo que empurrou o ajuste das contas com a barriga até o limite do calendário eleitoral.
A Quadratura do Círculo e os Velhos Fantasmas
O roteiro da reunião no Alvorada expõe a contradição central da gestão petista: Lula pede à sua equipe uma fórmula mágica capaz de controlar a trajetória da dívida e atrair capital estrangeiro sem tocar na estrutura de gastos que gerou o desequilíbrio.
Três pontos resumem o impasse criado pelo próprio Executivo:
- Bombeiros de mãos atadas: Fernando Haddad e Dario Durigan passaram meses sinalizando a necessidade de revisão orçamentária, mas esbarraram repetidamente na resistência política do próprio presidente em cortar despesas obrigatórias e benefícios. Pedir “ajuda” à equipe econômica agora soa como terceirizar a responsabilidade por decisões que o chefe do Executivo se recusou a tomar.
- O retorno de Guido Mantega: Como se o cenário fiscal já não exigisse cautela suficiente, a notícia de que o ex-ministro Guido Mantega também pediu espaço para ser ouvido envia o pior sinal possível aos agentes econômicos. Símbolo da “Nova Matriz Econômica”, que mergulhou o país em recessão na década passada, Mantega volta à cena insistindo na tese de que o problema fiscal se resume aos juros altos, minimizando o descontrole primário das contas.
- A conta da hesitação: Enquanto o governo promove rodadas de escuta no Alvorada — onde Lula, segundo relatos, prefere “mais ouvir do que falar” — e adia o envio de ajustes concretos no Orçamento para depois da viagem presidencial à COP31, o custo de rolagem da dívida segue pressionando o país e travando a queda estrutural dos juros.
Governar exige escolher prioridades, não apenas reunir conselheiros com visões antagônicas para dividir o desgaste político. Ao pedir ajuda aos seus próprios ministros para conter uma crise amplamente anunciada, Lula admite, ainda que sem dizer uma palavra, que o discurso de que “gasto é vida” encontrou finalmente o muro implacável da aritmética.




