O teatro político de Brasília ganhou mais um capítulo digno de prêmio de interpretação na reunião da bancada do Distrito Federal com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Em pauta, a tentativa desesperada de reverter a manobra fiscal que pode arrancar nada menos que R$ 1,8 bilhão do Fundo Constitucional do DF (FCDF) já no orçamento de 2027. Mas o detalhe mais indigesto do encontro não está apenas no rombo bilionário que ameaça a segurança, a saúde e a educação da capital — está em quem resolveu aparecer na foto para posar de salvador da pátria.
Lá estavam, sorridentes para os cliques e inflamados para as redes sociais, os representantes da esquerda local: os deputados federais Erika Kokay (PT), Angnelo Queiroz e Reginaldo Veras (PV) — cujo partido compõe literalmente a mesma federação partidária do PT de Lula —, além do deputado federal recém-eleito Fábio Félix (PSOL). A cena beira o surrealismo político: parlamentares que formam a tropa de choque e a base de sustentação do governo Lula no Congresso subitamente vestem o figurino de defensores intransigentes de Brasília contra um ataque orçamentário gestado, calculado e empurrado pelo próprio Palácio do Planalto.
A hipocrisia opera em dois tempos perfeitamente ensaiados:
No plenário, a obediência cega ao Planalto: A trava que ameaça o FCDF não caiu do céu nem foi obra do acaso. Ela é fruto direto da engenharia contábil do governo federal e de suas regras fiscais — aprovadas e blindadas com o suor e os votos da federação PT-PV e do PSOL —, que limitam o crescimento das despesas vinculadas sempre que o governo central projeta deficit primário. Em resumo: a União gasta mal, estoura as próprias contas e manda a fatura de R$ 1,8 bilhão para o contribuinte brasiliense pagar.
Nas redes sociais, o bombeiro que esconde o fósforo: Diante do desgaste óbvio com o eleitorado do DF, a mesma base governista que chancela a agenda econômica do Executivo corre para gravar vídeos indignados. Erika Kokay chegou a declarar nas redes que “não podemos permitir que haja qualquer tipo de mudança no cálculo de reajuste do fundo constitucional”, enquanto Veras e Félix engrossam o coro de que o recurso é essencial para sustentar a capital. Esqueceram apenas de combinar o discurso com o chefe no Palácio do Planalto e com o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, a quem a bancada agora precisa implorar por uma trégua.
Posar ao lado da oposição no gabinete da presidência da Câmara para cobrar a salvação do FCDF é fácil. Difícil é explicar ao morador do Distrito Federal como Erika Kokay, Reginaldo Veras e Fábio Félix conseguem aplaudir, sustentar e votar com um governo federal que trata o orçamento de Brasília como caixa eletrônico para cobrir o próprio rombo fiscal — e, cinco minutos depois, olhar para a câmera e fingir que não têm absolutamente nada a ver com o assalto.




